sábado, fevereiro 25, 2006

Hue: celebrar a morte em vida

Chegamos a Hue as sete da manha. O esquema destes autocarros "open-tour" que proporcionam viagens a precos muito em conta eh terminarem o trajecto junto de um hotel filiado/associado. Tendemos a evitar estas propostas "impostas". Preferimos por as mochilas as costas e procurar um pouso diferente, mesmo que pareca uma bencao ter um quarto ah nossa espera apos 12 cansativas horas de viagem.
Desta vez andamos pouco ate encontrar um alojamento aceitavel e com Internet gratuita. Tomamos um pequeno almoco sofrivel (o cafe aqui eh doce, algo intragavel para quem o costuma beber sem acucar) e rumamos ah citadela/cidade purpura proibida de Hue. O complexo de edificios construido a partir de 1804 pelo imperador Gia Long perdeu grande parte da imponencia devido aos bombardeamentos norte-americanos durante a Guerra do Vietname. As paredes resistentes pertencem a saloes cerimoniais, aposentos de concubinas e eunucos, palacio do imperador, entre outros espacos munidos de requintadas decoracoes. A rodear estes edificios encontramos vastidoes de mato que, juntamente com os trabalhos de restauro que parecem eternizar-se noutros edificios, transmitem um ar de abandono. Sentimos pena de nao conhecer este complexo no seu auge arquitectural mas resistimos estoicamente ah hipotese de regressar ao passado atraves das coloridas e "ricas" roupas chinesas disponiveis para alugar. Mas ha quem as vista e depois tire fotografias "imperiais". A primeira tarde em Hue eh ocupada com a procura de um restaurante e dois templos. O local escolhido para almocar fechou e nao descobrimos, por incrivel que pareca, nenhuma alternativa no bairro onde estamos. Resolvemos "despachar" os templos para regressar ao nosso hotel e comer. Acontece que o mapa do nosso livro-guia tem outros planos e o que parece perto e facil revela-se longe e complicado. Seguimos numa estrada ao longo do rio ate que, sem perceber bem como, nos vemos ah beira dum bairro de lata flutuante. Nos barcos atracados na margem constata-se miseria. Ah medida que avancamos surgem no nosso caminho deficientes, velhos, criancas. Apos suplantarem a surpresa de ver turistas a pe por aqueles sitios, pedem-nos esmola. Um miudo bate-me nas costas e foge depois de nao lhe darmos dinheiro. Comeco a sentir que a minha camara fotografica da demasiado nas vistas e eh um alivio quando encontramos o primeiro pagoda. Nos jardins de Dieu De, monges meditam enquanto rapazes e raparigas com fardas de liceu metem conversa connosco. Insistem para eu lhes passar a camara para as maos (a fim de nos tirarem uma foto?). Nao o faco, saimos do local e, teimosamente, continuamos a nossa caminhada desconhecido adentro, ate concluirmos que eh melhor voltar para tras. Famintos, suados e cansados, mas ja em terra "segura", juramos nao confiar mais em mapas minusculos onde tudo parece simples.
No dia seguinte, regressamos as excursoes organizadas para visitar os mausoleus reais nos arredores de Hue. A viagem eh feita ao longo do Rio Perfume -- sim, novamente -- num Barco Dragao. O caminho eh aproveitado pelas tripulantes (todas mulheres, com a excepcao do rapaz-piloto) para sessoes de vendas: estatuetas, pinturas em seda, postais, roupas... O grupo mostra-se pouco permeavel e direcciona a atencao para a paisagem. O dia esta finalmente radioso. Na margem distinguem-se chapeus conicos a trabalhar a terra. Na agua deslocam-se barcacas cheias de areia dragada por mulheres (tal como na India, cabe-lhes executar grande parte do trabalho pesado).
Paramos no Thien Mu, pagoda construido em 1601. Alem dos templos, a atencao centra-se nas criancas a tratar dos bonsais que embelezam os jardins. Fingem-se alheias aos movimentos dos turistas que tentam captar "A" fotografia da viagem, mas la acabam por posar... O tempo eh escasso para nos perdermos no imenso complexo. A ansia de mais uma foto -- nao obrigatoriamente das criancas -- faz com que seja dos ultimos a chegar ao barco, situacao que se ira repetir ao longo do dia (contrariamente ao que eh costume). Simplesmente porque os mausoleus revelam-se, um apos outro, magnificos complexos de templos, palacios, tumbas, espacos de lazer. Idealizados pelos imperadores da dinastia Nguyen, parecem mini-cidades criadas para o deleite dos monarcas em tempo de vida, alem de moradas faustosas para os corpos defuntos. Lagos e florestas rodeiam as belas e imponentes construcoes, solicitando contemplacoes e deambulacoes demoradas. Nada disso eh possivel, com grande pesar nosso. A unica altura em que o ritmo acelerado eh bem vindo acontece nas viagens de moto entre a margem do rio e dois dos mausoleus. Mal atracamos ja nos esperam dezenas de motoqueiros, femininos e masculinos, que apos comunicarem o preco de ida e volta nos convidam a saltar para o banco da mota e a nos agarrarmos bem. O vento a bater na cara afugenta o calor e promove uma sensacao de liberdade. Ah qual eu resisto, nao abracando a minha condutora conforme os incitamentos dos motoristas masculinos...
Apesar das velocidades indesejadas, a excursao aos mausoleus acaba por tornar a passagem por Hue ainda mais justificada. Eh com o sentido do "dever" cumprido que preparamos nova etapa: Hoi An. [PMM]

2 Comments:

At 2:59 da tarde, Anonymous Anónimo said...

Olá lobos!Agora que descobri que também posso fazer parte da alcateia, tenho a dizer-vos que o Inverno nunca mais acaba e Lisboa ainda não recuperou a sua luz, que a 6ªF nunca mais chega, que o Benfica cometou a proeza de ganhar ao Liverpool, que, a partir de hoje, o Cavaco é Presidente e que... ansiamos todos por notícias desse lado do mundo!Vocês estão a criar expectativas demasiado altas!!!!!Esperamos que se estejam a divertir e a aproveitar cada sentido dessas paisagens.
Beijinhos, Carla Simões

 
At 11:48 da tarde, Blogger av_pm said...

Ola Carla! Obrigada pelas noticias que nos envias de Lisboa... fazem-nos querer aproveitar mais e mais esta oportunidade de parentesis nas nossas vidas habituais.
Ja as noticias deste lado do mundo tardam porque temos estado em locais onde simplesmente nao existem centros de internet como na India ou no Camboja, por exemplo. Aqui toda a gente tem internet em casa ou no emprego... Neste momento estamos no Japao e so conseguimos escrever porque o alojamento oferece-nos acesso gratuito.
Mais uma vez, obrigada pelas tuas palavras de incentivo!
Beijinhos

 

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