Segunda-feira, Maio 04, 2009

Passo a passo

Dizem que o prometido é devido. Nem sempre, nem sempre, já sabemos. Desta vez tardou mas parece que vai chegar. Se ainda passar por aqui alguém, saiba que vamos tentar dar uma nova viagem ao mundo. Por letras e imagens apenas, que agora outros valores se impõem no nosso dia-a-dia físico. Num novo blog retomaremos uma volta ao mundo, pé ante pé, sem pressa de chegar ao fim. Assim haja tempo e vontade de percorrer o caminho inteiro. Até já em Uma Imagem 100 Palavras. [PMM]

Quinta-feira, Julho 27, 2006

O Rio de Janeiro continua lindo

E Lisboa também.
No dia 16 de Julho de 2006, domingo de calor sufocante, aterrou um avião no aeroporto da Portela proveniente de Madrid. Para muitos passageiros, a pequena viagem representava o início de uma temporada de descoberta. Para dois deles significava o regresso a um solo que não pisavam há mais de 8 meses.
Partimos do Rio de Janeiro quase 24 horas antes. Na cidade carioca, efectivamente uma das mais lindas do mundo inteiro, vivia-se o período de Inverno, caracterizado por passeios no calçadão de Copacabana aos finais de tarde dos dias de semana e por dias de banhos de sol e mar ao fim-de-semana. Os cariocas vivem o "Verão" o ano inteiro. O período invernal reflecte-se, apenas, numa brisa fresca, suave, agradável.
A cidade maravilhosa foi o derradeiro capítulo de uma saga de oito meses e meio, iniciada na caótica Mumbai da Índia. A sorte acompanhou-nos como foi hábito e do Rio apenas ficaram boas recordações. O samba, chorinho e bossa nova omnipresentes, as areias de Ipanema e Copacabana, o bairro Santa Teresa que mimetiza o Bairro Alto lisboeta, as insuperáveis vistas a partir do Corcovado e do Pão de Açúcar, a grandeza dimensional e histórica do Maracanã. Foram sete dias de "tropicalismo" a findar meses de sensações e emoções tão diferentes quanto inesquecíveis.
Como indefectíveis "torcedores de nariz" aos "diários" bloguísticos, a nossa intenção inicial era descrever tudo, a par e passo, aos nossos amigos e familiares. Estávamos longe de imaginar que a nossa viagem poderia interessar a outras pessoas. E que haveria leitores a ultrapassar a inicial "inveja" (sentimento que até alguns dos mais chegados não conseguiram ocultar) para se deixar (en)levar (?) pelas histórias contadas por quem aprendeu, ainda mais, a amar a diversidade deste mundo em que vivemos.
O regresso a Portugal remeteu-nos para realidades sobejamente conhecidas deste país -- as burocracias das finanças, por exemplo -- mas também para novos modos de viver (n)este local. A luz de Lisboa parece agora ainda mais radiosa. O fado surge como uma referência inevitável, a sorver com outra predisposição. No fundo, descobrimos um pouco do que é ser-se português -- nas condicionantes positiva e negativa -- enquanto andávamos mundo fora.
Agora estamos cá, por enquanto sem Internet. Como bons portugueses, "desenrascamo-nos" como podemos. Mas existe uma espécie de "dívida" para com as pessoas "anónimas" que entretanto se juntaram à nossa viagem. Ficaram histórias por contar. Ficaram imagens por mostrar.
Penso que ainda não mudámos o "torcer de nariz" aos blogues. Mesmo se tal tivesse ocorrido, agora não teríamos novas "aventuras" a relatar. Além disso, como jornalistas, vamos ter de procurar (re)aproveitar as experiências vividas e recolhidas ao longo deste tempo. É preciso ganhar a vida. Por falar nisso, haverá por aí algum editor escondido entre os leitores anónimos?!? :-)
Ainda assim, a dívida existe. Simplesmente porque não têm preço as mensagens de apoio deixadas por aqui. É preciso retribuir o carinho que sentimos, a milhares de quilómetros de distância, ao ler as frases compostas para nós. Resta-nos tentar, assim que a Internet regressar ao nosso lar, recordar uma ou outra historieta, ilustrada em palavras e imagens.
Até lá, obrigado por nos terem acompanhado. [PMM]

Quarta-feira, Junho 21, 2006

Hue, Vietname


Hue, Vietname
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A terminar, a geometria do bonsai.

Hanoi, Vietname


Hanoi, Vietname
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A curta angústia do sinal vermelho. Sem carros.

Macau, China


Macau, China
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O melhor bacalhau à brás de Macau (e não só). A ementa tinha os resultados do campeonato de futebol português e respectiva classificação.

Macau, China


Macau, China
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Nunca foi tão fácil encontrar o local desejado.

Macau, China


Macau, China
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Vitória de Setúbal-Benfica. Só podia ser em Macau.

Quioto, Japão


Quioto, Japão
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De yukata num ryokan. Confusos? Também nós estivemos.

Tóquio, Japão


Tóquio, Japão
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Noite chuvosa na cidade do neon.

Hong Kong, China


Hong Kong, China
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Hong Kong: uma cidade com ruas repletas de lojas especializadas. Peixes, pássaros, flores, ginseng...

Quioto, Japão


Quioto, Japão
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Gueixa-time. Apenas em espectáculo, claro.

Hong Kong, China


Hong Kong, China
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Festival de luz e neon na noite de Hong Kong.

Quioto, Japão


Quioto, Japão
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Templo dourado, ex-libris de Quioto.

Terça-feira, Junho 20, 2006

Tóquio, Japão


Tóquio, Japão
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"Concerto" no parque, sábado à tarde. E os tipos eram bons.

Halong Bay, Vietname


Halong Bay, Vietname
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Aldeia flutuante de pescadores (e não só) na baía de Halong.

Hoi An, Vietname


Hoi An, Vietname
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O Vietname também tem palmeiras.

Ho Chi Minh, Vietname


Ho Chi Minh, Vietname
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Frenética ex-Saigão.

Cameron Highlands, Malasia

Plantações de chá

Domingo, Junho 18, 2006

Elipse cinematográfica

"No escurinho do cinema,
chupando drops de anis,
longe de qualquer problema,
perto de um final feliz."
Rita Lee

O ecra ilumina-se. Um barco navega no rio Mekong. Tem forma de aviao. Reformulo: a parte superior do barco é a fuselagem de um velho aviao. Estamos no Camboja. Elipse cinematográfica. Estamos num comboio com "focinho" pontiagudo. Tal como um aviao. Chamam-lhe "comboio bala". Estamos no Japao, afinal. E parece que pelo caminho passámos por Bangkok, Singapura, Malásia, Hong Kong e Macau.
Elipse. A fronte nao engana. Parece um aviao. Desta vez é. Estamos a aterrar no aeroporto de Sydney, Austrália. E depois o mesmo cenário, desta vez sem necessitar de elipses, na Nova Zelândia. E no Chile. E na Ilha de Páscoa, final das andanças aéreas. Desde entao as elipses fazem-se com autocarros. Horas e horas de viagens, entre Chile, Peru, Bolívia, Argentina.
Passaram meses desde a viagem de barco que atravessou a fronteira entre o Vietname e o Camboja. Passaram demasiados risos e choros, demasiados deslumbres e dificuldades, para que este "filme" seja mais do que uma manta de elipses. Um repositório de frases sintéticas, de ideias quase abstractas. A memória existe, algumas fotos também. Mas resgatá-las em tempo útil para este local é uma missao verdadeiramente impossível.
Há sensaçoes que levam tempo a descrever. O tempo, também por aqui, é bem escasso e precioso. E, à medida que o fim desta viagem se aproxima, mais sobe a cotaçao do tempo. Como enunciar os arrepios sentidos na prisao do regime de Pol Pot onde morreram milhares de cambojanos? E as maravilhas de descobrir durante três dias consecutivos os recantos dos inúmeros templos de Angkor? A viagem turbulenta até à Tailândia, com passagem surreal de fronteira (mochila às costas à procura do novo transporte). A noite ainda mais caótica em Bangkok, cidade do sexo e álcool. Os templos budistas com estátuas tao douradas que ofuscam. A Singapura moderna, automatizada, pretensamente artificial, que lançou um feitiço sobre os viajantes em forma de festival carnavalesco. A Malásia muçulmana, exemplo de tolerância religiosa, bofetada nas ideias pré-concebidas do Ocidente. A Hong Kong cosmopolita a diferenciar-se do resto da China (que nao visitámos). E a Macau onde ainda se pode comer Bacalhau à Brás, pastéis de nata e encontrar a campa "perdida" de uma bisavó.
E como escrever sinteticamente sobre esse mundo à parte que é o Japao? Onde gueixas vestidas a rigor se cruzam na rua com executivos vestidos a rigor, entre raparigas com trajos de "boneca-Barbie" ou a simples mas provocante farda escolar. Onde templos centenários e arranha-céus modernos comungam espaços em cidades que pertencem tanto ao passado como ao futuro. Onde os caracteres nos sao desconhecidos, transformando o visitante numa pessoa perdida sem traduçao. Tal como no filme de Sofia Coppola.
As elipses prosseguem. Voamos até ao centro da Austrália, imensa regiao de terra vermelha árida, composta por planícies a perder de vista e habitada por aborígenes desfasados do mundo moderno que nao é seu. No meio deste quase nada, a magia de um local sagrado como a hipnótica rocha Uluru, onde o nascer e por-do-sol é sempre diferente. As cidades de Melbourne e Sydney vibram com museus excelentes, arquitecturas excepcionais (que dizer da Opera de Sydney?), bairros artsy onde se come -- finalmente -- de forma deliciosa e se visitam lojas/galerias avant-garde.
A Nova Zelândia recebe o visitante com outro tipo de vibraçoes. Umas plácidas, inerentes à contemplaçao de paisagens de sonho -- quase irreais -- compostas por planícies/vales verdes e montanhas brancas, sempre com vacas, ovelhas, cavalos a comporem o quadro. Outras mais frenéticas: conhecer a forte cultura maori, observar baleias (e uma delas passar por baixo do nosso barco), escalar parte de um glaciar, fazer skydive.
A descida é vertiginosa. Durante 40 segundos que parecem uma eternidade estamos suspensos no ar. O solo aproxima-se rapidamente. O ar fustiga a face. A adrenalina é inebriante. Nova elipse. Lá em baixo as cores mudam. E faltam as ovelhas. Estamos num novo continente. Surgem figuras de pedra, gigantes. Chamam-lhes moai. Saltámos de um aviao na Nova Zelândia e aterrámos na Ilha de Páscoa, no meio do Pacífico. E descobrimos um dos locais mais remotos e enigmáticos da terra. Ou melhor, retiramos parte do mistério às famosas estátuas. Agora tudo é mais claro.
É mais clara a beleza natural do lugar escolhido pelos Incas para construir Machu Picchu. Ou da cidade de Cusco, no Peru, ter sido o centro do império inca. E de que sao formadas as ilhas artificiais flutuantes, construídas pelos Uros no lago Titicaca, massa de água gigante (em dimensao e em altitude) pertencente tanto ao Peru como à Bolívia.
No museu de La Paz aprendemos que o cultivo da folha de coca, preciosa auxiliar na forma de chá para a vivencia a 4 mil metros de altitude, é secular e nada tem a ver, segundo as tradiçoes camponesas, com a droga que se consome nos "vizinhos" Estados Unidos da América e outros países desenvolvidos. Em Uyuni descobrimos o significado de ter frio e ficar com os pés literalmente gelados. Mas também conhecemos a simpatia dos bolivianos e dois "belos" diferentes: um branco, do mar de sal, outro colorido, das lagunas.

A descida dos 4 mil metros de altitude em que vivemos durante semanas é menos vertiginosa. A Argentina (tal como o Uruguai) recebe os visitantes com outro tipo de chá -- mate --, de atitude (mais cosmopolita), e de bife. Troca-se a carne de alpaca pela de vaca e ficamos perante os melhores bifes do mundo. Seja em Salta, Mendoza, Córdoba, Rosário. Ou em Colonia del Sacramento, onde um museu feito de pedra e madeira se preenche de azulejos, cartas de marear, réplicas de naus, estandartes com escudos reais, mostrando que os portugueses também deixaram sementes em terras agora uruguaias. E numa das cidades mais fantásticas da viagem, a alma bem poderia ser lusa. "Mi Buenos Aires querida", cantava Carlos Gardel, com sentimento que nos lembra o fado. Resta acompanhá-lo enquanto se visitam bairros, museus e mitos (a inevitável Evita) ao som do tango.
Os sons agora, neste presente sem elipse, sao outros. Grita-se golo de Portugal. Ouvem-se os gritos de "gol" da Argentina. Como som de fundo estão as cataratas do Iguazu, torrente portentosa de água a cair no abismo, geradora de novas experiências inesquecíveis. As cataratas sao tao grandes que se podem observar a partir de dois países. Por isso, a próxima paragem já se chama Iguaçú, terra de samba. Amanha grita-se gol. Do Brasil. E esperemos que esta viagem, agora quase no fim, possa fechar com novo grito de golo. De Portugal. Se assim for, a elipse será perfeita. [PMM]

Sábado, Abril 22, 2006

Alice Springs, Australia


Alice Springs, Australia
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tres camelos no deserto australiano

Angkor, Camboja


Angkor, Camboja
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a imagem mais emblematica de um pais a recuperar de guerras e tiranias

Angkor, Camboja


Angkor, Camboja
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despedida com por-do-sol apos tres dias a descobrir templos

Bangkok, Tailandia


Bangkok, Tailandia
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serena face do Buda. deitado.

Bangkok, Tailandia


Bangkok, Tailandia
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Muay Thai: murros, pontapes, musica, apostas, agitacao. gostamos

Doi Suthep, Tailandia


Doi Suthep, Tailandia
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ao largo de Chiang Mai, local de romaria budista (e turista)

Kajuraho, India


Kajuraho, India
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ao pe dos "templos eroticos", sem corar

Singapura


Singapura
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amor ah muculmana

Vientiane, Laos


Vientiane, Laos
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Parque dos Budas. E de outras estatuas

Vientiane, Laos


Vientiane, Laos
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pelo buraco... do templo

Luang Prabang, Laos


Luang Prabang, Laos
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monges budistas na recolha matinal de alimentos

Sexta-feira, Abril 21, 2006

Mekong: a caminho do Camboja

(dia 25 Janeiro). Temos sorte no guia que nos ira acompanhar pelo Mekong ate ao Camboja. Eh Mr. Son novamente. Visitamos aldeias onde se produzem caramelos de coco (compramos um saco cheio de especimes com amendoim, entretanto ja todos comidos) e arroz tufado (processo que inclui areia preta numa serta ao lume, imagine-se), com metodos artesanais mas tecnicas de marketing modernas: compre 5 leve 1 gratis. Passeamos pelo mercado flutuante de Cai Be com as suas canoas cheias de vegetais, flores, animais, ja distante das horas mais agitadas da manha.
O percurso de barco pelos canais ate ao local do almoco relembra os backwaters indianos de Allepey. A vida das pessoas volta a estar intrinsecamente ligada ao rio. O restaurante escolhido para a refeicao eh apresentado como "tipico" mas o servico e a comida parecem demasiado rotineiros, tipo casamenteiro. Depois do repasto, folclore musical por "amadores" com o guia Son a incitar as palmas e a gorjeta no fim (deu o exemplo e tudo...). Soa a falso.
O regresso ah "real life, real people" apregoada por Son da-se num mercado local, ja em terra, malcheiroso mas repleto de cor e movimento. Na longa viagem de autocarro que se segue vemos plantacoes de flores coloridas, arrozais verdes, casas modestas. O derradeiro capitulo maritimo do dia eh a travessia no ferry que nos deixa em Chau Doc. Tempo para jantar hot pot (marisco e vegetais cozinhados em agua/vapor) ah beira do Mekong acompanhados por um batalhao de mosquitos que quase levam a AV a esgotar o stock de repelente.
(dia 26 Janeiro). A visita ah aldeia flutuante eh ponto alto da excursao. As mulheres remadoras que nos transportam sao as mais simpaticas e genuinas que encontramos no Vietname. Os sorrisos sao francos e a boa disposicao generalizada. Nos turistas que nos acompanharao ate ao Camboja esta um frances, casado com uma portuguesa. Fala portugues e a empatia eh imediata com este vizinho que ate conhece Peniche (tem casa perto das Caldas da Rainha). Na aldeia mostram-nos casas flutuantes que funcionam como viveiros de peixe e como se fabrica a massa que os alimenta. Na dificil entrada e saida dos barcos para as casas, um dos Dupont (nome com que baptizamos dois franceses de barba branca que passam os dias a beber cerveja) cai ao rio e eh resgatado a custo pela remadora. Encharcado ate aos ossos, de novo no barco, Dupont tirita de frio. Helas, a maquina fotografica, mesmo apos o banho, continua a funcionar. Nos passamos a desembarcar com redobrado cuidado.
A excursao termina numa aldeia terrena da minoria Cham, menos "turisticamente poluida" do que os exemplos avistados no Laos ou Tailandia. Despedimo-nos do resto do grupo, do guia Son e da nossa simpatica barqueira e respectivo filho (ate nos fez massagens nos ombros) para entrar num barco a motor, juntamente com os nossos campanheiros de viagem ate ao Camboja. O dito "fast boat" leva o contigente atraves de um Mekong mais agreste e que consegue molhar os tripulantes. Ainda no barco, trocamos os ultimos Dong por Riel, moeda da etapa seguinte. Quando atracamos na fronteira apenas temos moedas suficientes para comprar umas fatias de ananas ao simpatico Lam, menino que brinca comigo as massagens (eu tambem lhe faco uma e peco Dongs pelo trabalho) contagiando o riso por todo o grupo. Agora sim, estamos preparados para o Camboja. Acho. [PMM]

Ho Chi Minh City: a poderosa energia de Saigao

Dia 1. Chegada tardia a Ho Chi Minh City, ex-Saigao. Autocarro cercado por uma imensidao de motos jamais presenciada.
Passeio nocturno pela cidade confirma cidade fervilhante, com os preparativos para o Tet (Ano Novo).
Regressamos ah boa comida. Avistam-se pares de turistas ocidentais com mulheres vietnamitas.
Dia 2. Excursao a Cao Dai e tuneis de Cu Chi. Guia excepcional, chamado Son, contextualiza a evolucao do Vietname atraves de uma analogia: em tempos nao longinquos, o pais vivia numa temperatura de -20 graus. Actualmente, a temperatura subiu para os zero graus. Ja nao esta tanto frio, mas ainda faz frio. O progresso esta portanto a comecar e eh preciso aprender com os "amigos estrangeiros".
Visitamos oficinas dedicadas ah arte da laca, decorada com incrustacoes de madreperola ou casca de ovo, onde os artesaos tem deficiencias fisicas, antes de rumar ao templo de Cao Dai, religiao fundada em 1919 e que agrega elementos de multiplas confissoes (budismo, taoismo, confucionismo, islamismo, cristianismo e hinduismo). O temple evidencia a mistura religiosa, com imagens de Buda, Jesus, Maome, Confucio, tectos estrelados, colunas rosa, e pinturas onde surgem "santos da casa" como o escritor frances Victor Hugo.
Nos tuneis de Cu Chi descobre-se a tenacidade e engenho dos guerrilheiros Vietcong. A rede de tuneis chegou a ter mais de 200 km distribuidos por varios niveis. Na altura da guerra, milhares de homens viviam nestas cidades subterraneas, onde uma deslocacao de poucos km levava varias horas a cumprir. Parte deste labirinto eh agora um parque tematico, com videos panfletarios a exaltar os feitos dos camaradas contra o imperialismo americano, recriacoes da vida nos tuneis, exibicao de armadilhas engendradas pelos vietcong e 100 metros de tunel reconstruido para os mais afoitos percorrerem (nos la fomos e achamos quase impossivel circular -- agachados -- naquele espaco apertado e claustrofobico).
No regresso da excursao tempo para descobrir os segredos de uma plantacao de arvore da borracha e beber agua de coco. A excursao nocturna do dia, ja por nossa conta, coloca-nos no meio de uma cidade em ebulicao: casamentos, bebida, prostitutas, pedintes, artigos festivos do Tet, tudo embrulhado em doses apoteoticas de neons, buzinadelas e barulhos de motor. Saigao (ou Ho Chi Minh, como preferirem) tem 7 milhoes de habitantes. E mais de 3 milhoes de motas, segundo o guia Son.
Dia 3. No War Remnants Museum conhecemos o outro lado da moeda sobre as atrocidades cometidas na guerra do Vietname, como o Agente Laranja (quimicos lancados por bombas norte-americanas que provocaram efeitos devastadores no meio ambiente e seres humanos) ou o massacre de My Lai.
O Palacio da Reunificacao, utilizado pelo presidente Ngo Dinh Diem e sucessores ate ao dia da "libertacao" do Vietname do Sul, permanece intocavel. Os saloes de recepcao, os quartos residenciais e o complexo subterraneo de salas de guerra estao tal e qual como foram encontrados pelo exercito vietcong, em Abril de 1975. Os dois tanques norte-vietnamitas que deitaram abaixo os portoes do Palacio sao as coqueluches do local.
O descanso das passeatas eh feito numa esplanada a saborear gelado de morango de Dalat. Ao jantar, compro um livro a uma das vendedoras que carrega uma pilha de obras locais e grandes bestsellers internacionais. O livro eh fotocopiado e acaba abruptamente numa pagina sem o habitual The End. Entretanto ja o li e parece-me que estava completo. Mas nunca se sabe neste Vietname. [PMM]

Problemas bloguisticos

Como continuar a escrever um blog da forma em que foi iniciado, quando o passar do tempo e das experiencias eh simplesmente demasiado esmagador -- e rico -- para o conseguirmos acompanhar? Esta foi a duvida que desde cedo, logo na India, comecamos a sentir. Fomos fazendo das tripas coracao para manter a nossa promessa, gastando preciosas energias, horas e "moedas", tao necessarias ao prosseguir da propria viagem, para actualizar o blog. A certa altura, fomos alertados de que poderiam ter usado parte da nossa prosa num artigo publicado em Portugal. A hipotese nao se confirmou, felizmente, mas o blog esteve parado durante semanas ate termos essa confirmacao. A verdade eh que agora estamos definitivamente demasiado atrasados. O blog vai no final do Vietname e nos andamos a gastar os ultimos cartuchos da Nova Zelandia... Entretanto, passaram oito paises/destinos.
Ja concluimos que as descricoes longas -- ainda assim abreviadas da realidade vivida -- sao impraticaveis. Por isso, andamos a pensar numa forma de actualizarmos este espaco, que seja mais rapida e, ao mesmo tempo, tenha algo a dizer a quem nos le. A tarefa parece dificil e por enquanto recorremos ao chavao da imagem que vale mil palavras. Esperamos poder continuar, pelo menos, este formato visual. Se alguem tiver uma ideia brilhante que a "emaile". A hipotese que esta a ganhar terreno entre nos, por agora, eh o formato telegrafico. E por falar nisso, aqui vai mais um capitulo do Vietname. [PMM]

Terça-feira, Abril 18, 2006

Mekong, Laos


Mekong, Laos
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dois dias de barco a caminho de Luang Prabang

Madurai, India


Madurai, India
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pes descalcos a descobrir templos hindus

Mumbai, India


Mumbai, India
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a cidade que viveu duas vezes... ao ritmo do cricket

Orccha, India


Orccha, India
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cores indianas numa terra descoberta com novo amigo catalao (como estas Jordi!?!)

Palolem, India


Palolem, India
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cinco dias no paraiso de Goa

Phnom Penh, Camboja


Phnom Penh, Camboja
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memorias tortuosas nas prisoes de Pol Pot

Phnom Penh, Camboja


Phnom Penh, Camboja
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poeira assassina a bordo do tuk tuk cambojano

Singapura


Singapura
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chingay parade - ano novo chines em Singapura

Singapura


Singapura
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baia rumo ao ceu

Rameswaran, India


Rameswaran, India
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refugio indiano

Varanasi, India


Varanasi, India
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gracas no Ganges sob forma de vela

Vang Vieng, Laos


Vang Vieng, Laos
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rio onde boiamos numa camara de ar...

Camboja


angkor_2
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o autocarro que nos levou ate Bangkok

Terça-feira, Março 14, 2006

Mui Ne: dunas de decepcao

Apos seis horas de viagem, em que eh necessario recorrer a comprimidos anti-enjoo, chegamos a Mui Ne, localidade costeira famosa pelas dunas de areia branca. Para nao variar, rejeitamos o resort onde o autocarro Sinh termina a marcha (se a proposta de Dalat era cara, a esta faltam os adjectivos). O cansaco acumulado ja eh tanto que decidimos ficar no primeiro sitio que encontramos, apos andar umas centenas de metros com as mochilas as costas. O bungalow, simpatico, ja eh em conta mas conseguimos poupar uns dolares ao prescindir do ar condicionado instalado, processo concretizado pela entrega do comando do aparelho ah recepcionista.
A preparacao para a praia eh rapida. O horizonte de mar azul chama avidamente por nos mas ah medida que nos aproximamos percebemos que o conceito de praia nao eh o mesmo que existe em Portugal. Como areal privativo, o nosso resort propoe um paredao de cimento com cerca de dez de metros, cheio de areia. Ha espreguicadeiras de madeira sem almofadas e dois chapeus de sol, manifestamente insuficientes para a quantidade de hospedes. Descemos uns degraus para a praia verdadeira e deparamos com uma lingua estreira de areia pejada de lixo -- garrafas, lampadas, sacos plastico, pedacos de madeira, isqueiros... -- e uma agua nada convidativa a banhos. O sonho das praias vietnamitas esta decididamente comprometido.
Ainda assim, o corpo eh quem mais manda e nao conseguimos arranjar forcas para nova partida. Passamos dois dias a apanhar sol nas cadeiras do paredao -- sempre que as conseguimos apanhar -- e a adormecer com o barulho das ondas. A ausencia de Internet impede-nos de actualizar o blog como pretendido pelo que ocupamos o tempo a ler (termino a biografia do Marlon Brando) e escrever postais e diarios. Mas sem banhos de mar, e manietados pela ementa limitada do resort e falta de outras opcoes validas por perto, depressa surge a vontade de partir. E mesmo sem o descanso necessario, la estamos de novo num autocarro a caminho de Ho Chi Minh, etapa quase final desta imensa Republica Socialista do Vietname, casa de 82 milhoes de habitantes e uns quantos milhares de turistas. [PMM]

Dalat: a frescura dos "alpes" vietnamitas

Com a consciencia tranquila de termos cumprido em Nha Trang a homenagem ah patrona -- e patrocinadora e mentora -- desta viagem (iniciada pela "iluminacao" ocorrida numa igreja da baixa lisboeta), chegamos a Dalat decididos a descansar entre o ar puro das montanhas. Mas isso so depois de descobrirmos um quarto para deixar as malas, apos rejeitarmos a proposta tiranica do Cafe Sinh: um hotel do mesmo grupo, caro e longe dos restantes alojamentos da cidade. A ladeira que comecamos a subir parece nunca mais terminar. Ja extenuados descobrimos um hotel assinalado no livro-guia. Uma familia vietnamita recebe-nos com um ingles parco, chavenas de cha e sorrisos. Ficamos. E nao desistiremos do quarto nos dias seguintes, mesmo sendo sempre acordados por um galo por volta das 4 da manha. A simpatia gera destas fidelidades absurdas.
O percurso inicial por Dalat revela uma cidade com aspecto de alpes suicos e Paris provinciana. Um lago artificial rodeado de montanhas verdejantes, avenidas bordeadas de canteiros de flores e uma construcao metalica semelhante ah Torre Eyffel criam um ambiente kitsch e diferente do resto do Vietname. A custo encontramos uma galeria de arte excepcional: os quadros que representam paisagens, pessoas, motivos florais, nao sao pintados mas sim bordados em seda. Ao longe a diferenca eh imperceptivel e ao perto a mestria desta arte torna-se auto-evidente. No segundo andar percorremos a oficina onde trabalham as mulheres bordadeiras e o atelier em que artistas tracam os contornos dos desenhos a preencher. A visita guiada inclui um cha de cortesia e eh feita sem pressao para comprar uma destas obras que podem ascender a milhares de dolares e demoram cinco meses a terminar.
Dalat eh realmente uma cidade artistica, estranha, idiossincratica. Comprovamos isso tudo na paragem seguinte, um cafe que funciona na casa de um pintor, poeta, musico local. A conversa que temos com o artista e um escritor amigo ingles sera para recordar/relatar em conversas cara a cara, depois do nosso regresso. Ha momentos tao especiais que merecem ser partilhados dessa forma.
Ficamos convencidos que sera dificil suplantar o primeiro dia em Dalat pelo que recorremos ao auxilio de dois "easy riders". Na manha seguinte la estavam eles: nao o Peter Fonda e o Dennis Hopper mas sim dois guias motoqueiros vietnamitas. Ja com capacete posto e bem agarrados na parte traseira da mota, partimos para um dia cheio de descobertas (palacios reais de Verao, cascatas, mosteiros onde se ensina meditacao zen, estacoes ferroviarias de estilo frances, plantacoes de cafe, "casas loucas" arquitectadas com inspiracoes em Gaudi e Dali) e aventura (um erro de percepcao levou a que nos perdessemos no meio de uma floresta, na unica parte do trajecto feita a pe... mas la encontramos a estrada e esperamos pacientemente pelos nossos "cavaleiros andantes"). As visitas efectuadas ao nosso ritmo -- demoramos o tempo que queremos em cada sitio -- intercalam-se com deliciosos (e frescos!) passeios de mota para criar novo dia memoravel. Gostamos tanto dos "easy riders" que acabamos por jantar quase sempre num simpatico e modesto restaurante -- magnificos hamburgueres de tofu e batidos de morango -- que por acaso funciona como ponto de encontro entre turistas e guias-motoqueiros.
No dia seguinte, o ultimo passeio na cidade eh feito a pe, em redor do lago artificial (e sujo), e ao jardim das flores, parque onde encontramos estufas enormes das magnificas, e ao que parece celebres, orquideas de Dalat. Recuperados pelo ar das montanhas -- mas muito ensonados pelo cantar de galo -- subimos de novo para o autocarro Sinh. A viagem ate Mui Ne leva horas por estradas serpenteantes e eh um balsamo quando conseguimos adormecer. Sonhamos acordar ja no meio da praia, sob o sol do Vietname... [PMM]

Domingo, Março 12, 2006

Nha Trang: memorias do Apocalipse

A costeira Nha Trang era dos destinos mais ansiados do Vietname. Primeiro devido a um sonho longinquo, ainda no tempo de preparacao desta longa viagem, que envolvia as praias de Nha Trang e uma mae falecida -- os contornos do sonho estarao perdidos algures na memoria. Depois porque surgia como a oportunidade de descansar alguns dias do ritmo frenetico imprimido desde o inicio. Finalmente, porque sobre o Vietname paira sempre a sombra do meu filme favorito: Apocalypse Now.
Chegamos cedo a Nha Trang. Sao seis da manha e o autocarro descarrega os passageiros ensonados no hotel associado. Sem vontade, mantemos a intencao de nao aceitar este bombom (nao diremos envenenado, mas pelo menos mais caro do que o normal). Temos de esperar mais de meia-hora para que a nossa escolha abra portas (a recepcao estava vazia) e depois de cumpridos os primeiros rituais -- pousar mochilas, tomar banho, descansar uns minutos -- estamos prontos para a praia. Mas esta nao esta pronta para nos. A meteorologia da-nos ceu encoberto e aproveitamos a manha para rumar ao templo famoso pela estatua gigante do Buda sentado. Imponente, num branco imaculado, o Buda observa a cidade a partir do topo de uma colina, resplandecendo sob um ceu finalmente azul. Ainda assim, o tom cinza teima em nao nos largar (aqui no blog temos evitado mencionar os momentos maus, as discussoes, mas tenham a certeza que tambem ha disso por aqui... :-) ).
Iniciamos o regresso ao hotel com o intuito de restabelecer a harmonia numa sessao de praia e eh por puro acaso que damos de cara com a catedral de Nha Trang, bastiao cristao em terra distante. A AV diz que as coisas (os desvios da rota, os entraves, etc) costumam ter uma significado qualquer "oculto", mas nunca teve tanta razao como desta vez. Depois de ouvirmos canticos no interior da igreja, deparamos com uma "Maria Madalena" mesmo ao lado de um "Phaolo". Nomes assim inscritos numa parede de lapides que rodeia a catedral. O sonho torna-se realidade atraves deste encontro inesperado.
Depois do episodio, o resto da historia de Nha Trang faz ainda mais sentido. Nada deste destino combina connosco. A cidade, essencialmente feia, parece uma estancia balnear da Tailandia, com bares -- e bebidas e prostitutas -- orientados para os turistas sedentos de alcool e sexo. A praia esta impossivel -- vento, mar encrespado, areia suja, vendedores ambulantes de pulseiras, comidas e massagens a perturbarem permanentemente o descanso -- e as excursoes programadas as ilhas adjacentes para fazer snorkeling parecem impraticaveis. Ainda assim, eh necessario um "enviado" para percebermos que a nossa missao aqui esta cumprida: ao jantar conhecemos uma italiana que decidiu tirar um ano sabatico apos apagar as velas dos 40 anos e nos diz que se vai embora na manha seguinte. Nha Trang esta "off-season", sublinha. Concordamos. Naquele momento decidimos partir na manha seguinte e procurar refugio nas montanhas de Dalat.
Parto mais leve. De tarde coloquei-me nas maos de uma vietnamita. A intencao era que me cortasse o cabelo, com a costumeira maquina zero, mas a especialidade da rapariga nao sera certamente o corte de cabelo. Nunca estive tao perto de ficar sem escalpe. O alivio de sair daquelas maos assassinas transforma-se em ira ao chegar ao quarto. A AV constata que, alem de marcas vermelhas na cabeca, tenho partes ainda com cabelo. A solucao eh passar uma lamina pelo escalpe. Eh a primeira vez que rapo o cabelo assim e quando me vejo ao espelho recordo-me imediatamente do Coronel Kurtz. E lembro-me que ando a ler a biografia do Marlon Brando onde, a paginas tantas, ele refere que rapou o cabelo para as cenas do Apocalypse Now sem consultar o Francis Ford Coppola. Junto Nha Trang, sonho "maternal", filme favorito, cabelo rapado, catedral, e concluo que ha coincidencias mesmo muito coincidentes. [PMM]

Sexta-feira, Março 10, 2006

Hoi An: a evasao francesa

Se demorassemos tanto tempo a preparar as actividades para um destino quanto levamos a "postar" um novo episodio, ainda deviamos estar no aeroporto da Portela. Nao estamos, e a passagem por Hoi An tem inicio com uma viagem de autocarro cenica, ora junto ah costa, ora entre vales e montanhas verdejantes. As duas paragens dividem-se precisamente por um resort de praia -- onde um gelado nos custa um balurdio e a paisagem de areia-mar nos abre o apetite para tirar uns dias de "ferias" deste viajar constante -- e pelas Montanhas de Marmore, conjunto de cavernas com santuarios hindus e budistas que rejeitamos visitar a correr nos 15 minutos concedidos pelo motorista. Tempo suficiente para compreender o nome dado a este local, pejado de lojas de estatuas (fontes com golfinhos, Davids, Budas, Jesus Cristos, ninfas, bustos de Ho Chi Minh...) e objectos mais diminutos de marmore.
Hoi An eh outra historia. E leva algum tempo a preparar o percurso, ja depois de alojados num hotel gerido por mulheres, que de simpatia extrema passam a descontentamento por nao utilizarmos os prestimos de agencia de viagens que nos impingem. Compramos um inteligente bilhete turistico que permite ao viajante escolher os templos, casas de mercadores e saloes de congregacoes que prefere visitar e ocupamos a tarde com as nossas primeiras seleccoes (uma casa mercantil excepcionalmente recuperada e uma ponte japonesa coberta construida em 1593). Aos poucos, Hoi An revela-se uma cidade com um centro historico excepcional, composto por ruas estreias e edificios de dois andares -- alguns com varandins de madeira -- pintados em cores garridas. Este patrimonio mundial da UNESCO surge como um museu de um importante porto comercial do seculo XVII. Tal como em Hue, a influencia chinesa eh notoria, nos templos, no cha oferecido na casa mercantil visitada, nas lanternas vermelhas que alumiam as ruas. A sorte sorriu-nos e a nossa primeira noite na cidade eh passada entre a animacao do Festival da Lua Cheia, manifestacao que integra espectaculos de folclore e demonstracoes de artes marciais para entreter turistas, enquanto os habitantes se entregam aos seus rituais de queimar dinheiro de papel e oferecer comida aos espiritos dos antepassados. Por entre luzes vermelhas, as unicas acesas durante a noite, experimentamos a delicada gastronomia de Hoi An e os saborosos white rose (gambas enroladas numa massa fresca e cozinhadas ao vapor) tornam-se imediatamente um prato favorito. Ah influencia chinesa junta-se a requintada "joie de vivre" francesa.
Os dias seguintes confirmam que passear por esta cidade eh um regalo. Para a boca atraves do hotpot (marisco, molusco e peixe a cozer/marinar num "tacho quente" aquecido por uma brasa), da Patisserie Hoi An em que se servem delicias dignas de Paris, e pelo jantar divino no Cafe des Amis onde escolhemos um menu de seis especialidades locais confeccionadas por Mr. Kim, cozinheiro e cicerone de eleicao. E porque os olhos tambem comem, deliciamos as vistas pelas lojas de artesoes (alfaiates, sapateiros), souvenirs, e pelo mercado onde peixeiras posam para a fotografia antes de estenderem a mao a pedir dinheiro. Hoi An tem tanta vitalidade e encanto que ofusca completamente a excursao feita a My Son. Talvez por termos encontrado magnificas construcoes de estilo semelhante na India, as ruinas Cham datadas do seculo VII (e ruinas eh mesmo a palavra acertada), nao conseguem impressionar. O passeio de meio-dia a este patrimonio UNESCO, liderado por um guia extrovertido cheio de piadas decoradas e que comanda o batalhao de turistas ao som de "Camon Tiger!", acaba por ter um resultado adverso: comecamos a ficar fartos desta sucessao de excursoes que nos facilitam a vida (em termos logisticos e economicos pois esta tudo tratado e eh mais barato do que fazermos as mesmas coisas autonomamente) mas impoem ritmos e companhias que nem sempre agradam.
Nao nos cansamos eh dos Tiramisu e Black Forest da Patisserie. E la voltamos ah esplanada banhada de sol para passar as ultimas horas nesta cidade onde o ar cheira a Paris. Daqui a breves horas, o ar a circular sera diferente, mais aspero, agreste e condicionado. Pouco depois de acabar a ultima garfada, subimos para o autocarro do Cafe Sinh. Pela frente, nova viagem de 12 horas, noite dentro, ate Nha Trang. Desta vez levamos sandes na mochila... [PMM]

Sábado, Fevereiro 25, 2006

Hue: celebrar a morte em vida

Chegamos a Hue as sete da manha. O esquema destes autocarros "open-tour" que proporcionam viagens a precos muito em conta eh terminarem o trajecto junto de um hotel filiado/associado. Tendemos a evitar estas propostas "impostas". Preferimos por as mochilas as costas e procurar um pouso diferente, mesmo que pareca uma bencao ter um quarto ah nossa espera apos 12 cansativas horas de viagem.
Desta vez andamos pouco ate encontrar um alojamento aceitavel e com Internet gratuita. Tomamos um pequeno almoco sofrivel (o cafe aqui eh doce, algo intragavel para quem o costuma beber sem acucar) e rumamos ah citadela/cidade purpura proibida de Hue. O complexo de edificios construido a partir de 1804 pelo imperador Gia Long perdeu grande parte da imponencia devido aos bombardeamentos norte-americanos durante a Guerra do Vietname. As paredes resistentes pertencem a saloes cerimoniais, aposentos de concubinas e eunucos, palacio do imperador, entre outros espacos munidos de requintadas decoracoes. A rodear estes edificios encontramos vastidoes de mato que, juntamente com os trabalhos de restauro que parecem eternizar-se noutros edificios, transmitem um ar de abandono. Sentimos pena de nao conhecer este complexo no seu auge arquitectural mas resistimos estoicamente ah hipotese de regressar ao passado atraves das coloridas e "ricas" roupas chinesas disponiveis para alugar. Mas ha quem as vista e depois tire fotografias "imperiais". A primeira tarde em Hue eh ocupada com a procura de um restaurante e dois templos. O local escolhido para almocar fechou e nao descobrimos, por incrivel que pareca, nenhuma alternativa no bairro onde estamos. Resolvemos "despachar" os templos para regressar ao nosso hotel e comer. Acontece que o mapa do nosso livro-guia tem outros planos e o que parece perto e facil revela-se longe e complicado. Seguimos numa estrada ao longo do rio ate que, sem perceber bem como, nos vemos ah beira dum bairro de lata flutuante. Nos barcos atracados na margem constata-se miseria. Ah medida que avancamos surgem no nosso caminho deficientes, velhos, criancas. Apos suplantarem a surpresa de ver turistas a pe por aqueles sitios, pedem-nos esmola. Um miudo bate-me nas costas e foge depois de nao lhe darmos dinheiro. Comeco a sentir que a minha camara fotografica da demasiado nas vistas e eh um alivio quando encontramos o primeiro pagoda. Nos jardins de Dieu De, monges meditam enquanto rapazes e raparigas com fardas de liceu metem conversa connosco. Insistem para eu lhes passar a camara para as maos (a fim de nos tirarem uma foto?). Nao o faco, saimos do local e, teimosamente, continuamos a nossa caminhada desconhecido adentro, ate concluirmos que eh melhor voltar para tras. Famintos, suados e cansados, mas ja em terra "segura", juramos nao confiar mais em mapas minusculos onde tudo parece simples.
No dia seguinte, regressamos as excursoes organizadas para visitar os mausoleus reais nos arredores de Hue. A viagem eh feita ao longo do Rio Perfume -- sim, novamente -- num Barco Dragao. O caminho eh aproveitado pelas tripulantes (todas mulheres, com a excepcao do rapaz-piloto) para sessoes de vendas: estatuetas, pinturas em seda, postais, roupas... O grupo mostra-se pouco permeavel e direcciona a atencao para a paisagem. O dia esta finalmente radioso. Na margem distinguem-se chapeus conicos a trabalhar a terra. Na agua deslocam-se barcacas cheias de areia dragada por mulheres (tal como na India, cabe-lhes executar grande parte do trabalho pesado).
Paramos no Thien Mu, pagoda construido em 1601. Alem dos templos, a atencao centra-se nas criancas a tratar dos bonsais que embelezam os jardins. Fingem-se alheias aos movimentos dos turistas que tentam captar "A" fotografia da viagem, mas la acabam por posar... O tempo eh escasso para nos perdermos no imenso complexo. A ansia de mais uma foto -- nao obrigatoriamente das criancas -- faz com que seja dos ultimos a chegar ao barco, situacao que se ira repetir ao longo do dia (contrariamente ao que eh costume). Simplesmente porque os mausoleus revelam-se, um apos outro, magnificos complexos de templos, palacios, tumbas, espacos de lazer. Idealizados pelos imperadores da dinastia Nguyen, parecem mini-cidades criadas para o deleite dos monarcas em tempo de vida, alem de moradas faustosas para os corpos defuntos. Lagos e florestas rodeiam as belas e imponentes construcoes, solicitando contemplacoes e deambulacoes demoradas. Nada disso eh possivel, com grande pesar nosso. A unica altura em que o ritmo acelerado eh bem vindo acontece nas viagens de moto entre a margem do rio e dois dos mausoleus. Mal atracamos ja nos esperam dezenas de motoqueiros, femininos e masculinos, que apos comunicarem o preco de ida e volta nos convidam a saltar para o banco da mota e a nos agarrarmos bem. O vento a bater na cara afugenta o calor e promove uma sensacao de liberdade. Ah qual eu resisto, nao abracando a minha condutora conforme os incitamentos dos motoristas masculinos...
Apesar das velocidades indesejadas, a excursao aos mausoleus acaba por tornar a passagem por Hue ainda mais justificada. Eh com o sentido do "dever" cumprido que preparamos nova etapa: Hoi An. [PMM]

Quinta-feira, Fevereiro 23, 2006

Hanoi: a cidade vermelha

As ultimas horas passadas em Hanoi, capital do Vietname, alteram a cor da cidade. O branco continua a marcar o ceu, mas eh o vermelho quem mais ordena nas ruas. Primeiro mascarado no bronze da estatua de Lenine que ainda nao caiu, como aconteceu noutras paragens do mundo ex-comunista. Depois no mausoleu de Ho Chi Minh, complexo de edificios onde pontificam bandeiras vermelhas, ora comunista, ora vietnamita. Percebemos que a visita ao Tio Ho, fundador da nacao, sera um momento solene. E caricato. Na fila para o detector de metais a confusao instala-se sobre o que se pode ou nao se pode levar para o mausoleu. Pessoas voltam atras para deixar sacos, depois "arrependem-se" e tentam reave-los; uns conseguem, outros nao, sem que se entenda qual a norma aplicavel. Nos acabamos por deixar os nossos pertences no "bengaleiro" e eh de maos nos bolsos que rumamos ah entrada da tumba. Um guarda apressa-se a "ensinar" que maos nos bolsos eh proibido. Fotografias nem se fala, mas as camaras todas, supostamente, ja ficaram retidas. Assumimos a posicao mais reverencial que nos lembramos (bracos colados ao tronco, costas direitas, olhar taciturno) para circundar a redoma que contem o corpo de Ho Chi Minh. O "quadro" eh estranho: o Tio Ho parece um boneco de cera -- iluminado artificialmente de uma forma que oscila entre o macabro, o ridiculo e o iconico -- guardado por soldados-estatua. A romaria eh rapida pois nao podemos parar o que concede tempo para espreitar o Museu de Ho Chi Minh (nao queria gastar o nome do homem mas ele esta por todo o lado), onde interpretacoes artisticas dos pensamentos/ideologia comunista partilham o espaco com objectos pessoais do lider revolucionario. A amalgama eh esquisita mas garante ao Museu uma qualidade incontestavel: nunca vimos nada igual.
O mesmo se pode aplicar ao Museu de Etnologia visitado durante a tarde (depois de andarmos horas/quilometros perdidos pela cidade, sem mapa, a tentar ir parar ao dito cujo, situacao resolvida pela AV com recurso a um autocarro local...) e que acaba por justificar a nossa opcao de nao ir a Sapa, aldeia nas montanhas povoada por tribos de minorias etnicas. O espolio do museu integra videos, objectos originais, reproducoes, textos explicativos, sobre os mais variados dominios -- instrumentos musicais, utensilios agricolas, vestuario, habitacoes, rituais sociais e religiosos -- da vida das minorias etnicas existentes no Vietname. Leva horas a percorrer esta imensidao de informacao que produz uma ideia ampla e rigorosa da riqueza etnografica deste pais e que dificilmente seria entendida nos mercados para turista ver (e comprar) em Sapa.
A noite chega e Hanoi tinge-se ainda mais de vermelho. Sao os stops das motos, os anuncios de neon, as lanternas chinesas. Despedimo-nos da cidade -- e da regiao Norte do Vietname -- com compras no mesmo tom (uma Tshirt, um bone) e a compra de um bilhete de autocarro no Cafe Sinh verdadeiro.
O comeco do trajecto ate Hue esta marcado para as 19 horas e so na manha seguinte chegaremos ao destino. O livro-guia avisa que esta forma de viajar -- nos autocarros para turistas -- impede o contacto com o Vietname real mas preferimos jogar pelo seguro nesta etapa inicial, ainda por cima tao longa. Chegamos cedo ah "sala de espera" que consiste nas mesas de um cafe (que nao eh Sinh...) decadente. Porque quem vai ao mar alivia-se em terra, rumamos ao WC do cafe. Comeca mal a viagem, pois eh a pior experiencia higienica desde que iniciamos esta aventura. Nem na India encontramos algo tao sujo.

A hora da partida aproxima-se e as mesas enchem-se de passageiros. Todos vietnamitas. Ja no autocarro, constatamos que alem de nos, apenas viajam mais dois pares de turistas ocidentais. Afinal, este eh mesmo um autocarro "local". Assim que o veiculo arranca, dois ou tres vietnamitas comecam a colocar colchoes, mantas e almofadas no corredor. Sao os motoristas que farao o resto do percurso e que agora tem de dormir. O andamento faz-se em grande velocidade, com acompanhamento permanente de buzinadelas. Pela janela observamos os campos cultivados, iluminados pelo luar. So perto da meia-noite eh que o autocarro sossega da sua marcha desenfreada. Descida em passo acelerado dos passageiros que se dividem entre a mijinha no terreno baldio e o sentar-se nas mesas do restaurante de beira de estrada. Finalmente podemos comer.
Mas nao ha menu. Em cima de uma bancada, estao expostos os petiscos disponiveis. Tripas, miolos, chouricos e carnes suspeitas, entre outras "iguarias" que nao conseguimos decifrar. Na parede oposta, outro balcao, com frascos de liquido transparente onde nadam lagartos e serpentes (mortos). Compramos pao, sem nada, para espanto da senhora que nos atende. Nem vai um caldinho de iguana, parece dizer? Nao obrigado. E comemos o pao seco como se fosse a melhor sande do mundo. [PMM]

Quarta-feira, Fevereiro 22, 2006

Halong Bay: a mae de todas as excursoes

Deixamos propositadamente Halong Bay para o final das excursoes planeadas. As viagens anteriores tinham a funcao de servirem tambem como um teste as agencias de viagens escolhidas. Sem mais "cartuchos" para gastar, voltamos a arriscar um tiro no escuro, ou seja, seleccionar um operador turistico com base no instinto. Como o clima teima em manter-se nublado, optamos por uma excursao de um dia, obviamente curta para apreciar devidamente este patrimonio com chancela da UNESCO. Sabemos, no entanto, que o tempo frio impediria os banhos de sol e de mar "anunciados" em todos os folhetos. A viagem de autocarro que nos leva a Halong Bay provoca boas impressoes: a guia fala um ingles bastante aceitavel e o grupo parece animado. Chegados ao porto onde centenas de barcos, grandes e pequenos, esperam ansiosamente por turistas, somos divididos por subgrupos consoante os dias de excursao. Ja no nosso "galeao" de one-day-tour, bastam poucos minutos para se instalar o bom ambiente, em grande parte devido a um comunicativo norte-americano, tambem a fazer uma volta ao mundo (o que o levou a passar por Lisboa), que se encarrega de fazer a ponte entre os excursionistas. Demorou um pouco mais de tempo a apreciar a beleza de Halong Bay, conjunto de cerca de 2 mil ilheus espalhados pelo golfo de Tonkin. As formacaoes rochosas que emergem da agua dispersam-se por diferentes tamanhos e assumem formas peculiares (o simbolo de Halong Bay sao dois monolitos que parecem galos a lutar). Alem da passagem pelos ilheus, a navegacao tem paragem numa das ilhas de maiores dimensoes, onde visitamos duas grutas em que as estalagtites e estalagmites assumem formas e proporcoes esplendidas, embora nem sempre com os significados mirabolantes e rebuscados que os guias tentam impingir. As iluminacoes artificiais dao um toque colorido e surreal as cavernas.
O almoco eh servido a bordo enquanto estamos atracados perto de uma aldeia piscatoria de casas construidas na agua. Saltamos para uma das construcoes assentes em estrados de madeira para observarmos uma especie de fastfood marisqueiro (ve-se o marisco/peixe nos viveiros, escolhe-se, paga-se e espera-se que seja cozinhado). Ao largo da nossa embarcacao, avistamos um pequeno bote cheio de miudos. Aproximam-se e pedem dinheiro. E nao deixam de pedir. Depois tentam abordar o barco. Sao rufias, mas nao sao miudos da rua porque vivem no mar. Regressam a casa depois de fazerem gestos atrevidos sobre a AV (sem ela ver). Um cao espera-os na plataforma de madeira que forma o cais da habitacao. O animal eh arrastado para dentro de casa. Seguem-se ganidos intensos. Depois um silencio desolador. Nao voltamos a ver o cao.
No regresso da excursao, a conversa flui no tombadilho entre um casal portugues (sim, nos), um par composto por um irlandes e uma belga (tambem numa grande viagem que tinha em comum a passagem inicial pela India) e um dos guias da excursao. Fala-se de varios assuntos e tambem do cao. O rapaz confirma que pode bem ter sido morto. A carne de cao eh uma iguaria no Vietname, sendo comum a existencia do "petisco" em dias festivos. Ate pode acontecer que, por uma ocasiao especial - como receber a visita de familiares - se mate o cao da casa para compor a mesa... Enquanto os ocidentais expressam a sua tristeza pelo destino dos "pobres" animais (no fundo, percebemos que eh uma questao cultural mas esta eh daquelas que nos custa a digerir...), o guia vietnamita solta uma gargalhada franca e contagiante enquanto diz "Vietnamese eat everything!!!"
Nos nao e depois de satisfeita a curiosidade sobre Halong Bay, maravilha plenamente confirmada apesar do dia cinzento, a noite em Hanoi eh adocicada pela descoberta duma geladaria frequentada por jovens (e respectivas motas) locais e sem menu em ingles. Pedimos um cone de "cocoa" que parece suficientemenre parecido a cacau. Delicioso. O segundo cone, ja munido de respectiva bola de gelado, eh comprado sem perceber o sabor em causa. Volta a agradar, justificando plenamente a afluencia dos adolescentes. O trajecto para o quarto, apesar de uma Hanoi friorenta e ja meio deserta, eh saboroso. E provoca a vontade de voltar um dia, mais solarengo, a esta cidade. Para repetir a dose de gelados e descobrir novos cambiantes de Halong Bay. [PMM]

Segunda-feira, Fevereiro 20, 2006

Hoa Lua/Tam Coc: novo capitulo do MMA*

Apesar da insatisfacao com a agencia de viagens seleccionada, ou melhor, com o guia que nos calhou, vamos ao mesmo Sinh fajuto para marcar nova excursao, desta vez a Hoa Lua, antiga capital real do Vietname, e Tam Coc, dita a Halong Bay dos arrozais. Antes da comprar os bilhetes, certificamo-nos que nao sera o mesmo guia a liderar a excursao. Garantem-nos que nao. No dia seguinte, constatamos que nao eh, de facto, o mesmo rapaz, embora o resultado seja semelhante: pouco ou nada se entende do ingles macarronico falado pelo guia.
Fazem falta as explicacoes para entender os significados de Hoa Lua, cidade edificada durante as dinastias Dinh e Pre-Le (969-1009). Pouco resta do esplendor de outrora; um pagode eh a construcao que melhor resistiu ao passar do tempo. Temos de nos "encostar" ah excursao do lado e ouvir o respectivo guia para entender que ate a orientacao das estatuas tem os seus segredos, neste caso a representacao da mulher do imperador morto que, ja casada com o imperador sucessor, teve que assistir ah sua estatua ser colocada de costas para o mausoleu do marido defundo. Nao se fosse pensar que ela tinha saudades dele...
A excursao prossegue ate Tam Coc (Tres Grutas), em pleno rio Ngo Dong. Na margem esperam-nos mais mulheres-remadoras. Cada barco inclui mais uma pessoa alem da "capita de bordo" (nuns casos outra mulher/rapariga, noutros um rapaz) que pega num pequeno remo e ajuda ah navegacao. A paisagem eh mais bonita do que a avistada no rio do Perfume mas o ceu nebuloso volta a evitar grandes deslumbramentos. A passagem por debaixo das famosas grutas acaba por ser o momento significante do passeio. A luz do sol desaparece gradualmente ao mesmo tempo que o tecto se aproxima do nosso barco ao ponto de nos obrigar a inclinar a cabeca. Ressurgidos da escuridao, volta a visao dos pescadores no rio, dos camponeses nas margens e dos monolitos de pedra que compoem a silhueta do horizonte. Mas nenhuma excursao de barco no Vietname fica completa sem uma rabula. Desta vez, temos direito a duas. A primeira acontece quando paramos brevemente para descanso da remadora e, pensamos, para apreciarmos a vista. Um novo barco acerca-se rapidamente do nosso e impede a contemplacao recem-iniciada. A remadora-vendedora quer vender snacks e bebidas em lata. Inicialmente a nos, turistas certamente sequiosos (apesar do frio de rachar). Depois de dizermos que nao, avanca o plano B: temos de comprar bebidas para a nossa remadora, desgastada do esforco de nos transportar. Vemos outros turistas comprar Coca-Colas para as suas remadoras, mas as latas sao colocadas fechadas atras do banco do barco (mais tarde regressarao certamente ah embarcacao da vendedora de snacks...). A segunda rabula revela o intuito de uma segunda pessoa em cada barco. Afinal nao eh para ajudar no remar, mas sim para - ja no regresso - retirar bordados de um saco de plastico e tentar vende-los ao turista. Este eh o esquema mais perfeito a que ja assistimos. Com o vendedor(a) ja no barco, nao ha forma de escapar ao assedio ate ao final da viagem (mas nao foi por isso que tiveram mais sorte connosco...).
A excursao termina com duas novas licoes. Licao um: nunca esperar conhecer todos os estratagemas de venda usados no Vietname: ha sempre um que nos consegue apanhar desprevenidos. Licao dois: deste Sinh cafe "falso" nao se pode esperar melhor. O que vale eh que ha muito por onde escolher... [PMM]


* (Manual do Marketing Agressivo...)

Quarta-feira, Fevereiro 15, 2006

Perfume Pagoda: fe no cimo da montanha

As ruas de Hanoi estao pejadas de cafes que funcionam como agencias de viagens. Eh complicada a tarefa de escolher um deles para marcar uma excursao. Embora as propostas sejam praticamente todas semelhantes, o resultado final pode ser bastante diferente. Recorremos inicialmente ao nosso livro-guia para nos orientarmos neste emaranhado de agencias, mas depressa constatamos que os locais sugeridos apresentam pacotes demasiado pesados para o nosso orcamento. Com base no instinto, decidimo-nos por um dos varios estabelecimentos que ostenta o logotipo Sinh -- originalmente um cafe/agencia de Saigao --, situado perto do nosso hotel. Como leremos mais tarde, nao existe uma legislacao que impeca diferentes empresas de utilizarem os mesmos nomes e ate os mesmos logotipos. Face a esta lacuna legislativa, eh certo e sabido que quando um restaurante (ou uma agencia) se torna famoso, rapidamente surgem inumeras copias que utilizam a mesma denominacao e imagem.
Na manha da excursao somos levados ate ao escritorio de uma tal de Open Tour Travel. O Sinh Cafe escolhido nao eh mesmo o original. A AV protesta mas como a excursao esta paga e nao nos apetece "perder" um dia, cedemos ir ao Perfume Pagoda acompanhados por um guia cujo ingles mal se percebe. Depois de uma viagem de autocarro, chegamos ao Rio do Perfume. Enxames de remadoras, novas e velhas, esperam os turistas em barcos achatados. Mulheres-fotografas disponibilizam-se a acompanhar os viajantes para registar em imagens este passeio ao longo de um rio calmo, ladeado por pequenas elevacoes rochosas. O dia continua cinzento e frio pelo que apos o desembarque sabe bem o inicio do trekking acelerado, mas o agradavel rapidamente se torna infernal, com o ritmo desenfreado imposto pelo guia a so ter descanso em bancas de bebidas previamente combinadas. Quatro quilometros apos o desembarque, numa gruta no cimo da montanha Huong Tich, falta tempo para descobrir os meandros de um dos templos mais importantes do Vietname, local de peregrinacao budista. Os altares evidenciam novamente a mistura de influencias que compoem a "tripla religiao" em voga no Vietname, derivada do budismo mahayana, taoismo e confucionismo.
Apos uma descida que nos faz passar mais uma vez em ritmo vertiginoso por inumeras bancas onde nos "oferecem" bebidas em lata, comida e ate poltronas para descansar enquanto se ve um video-CD, almocamos comida viet numa mesa corrida. O grupo de turistas com que viajamos nao eh muito comunicativo pelo que a interaccao se resume a sorrisos de circunstancia e pedidos para passar o molho de soja, enquanto a AV continua a sua luta (ainda por ganhar) para domar os pauzinhos chineses. A excursao contempla ainda uma visita rapida pos-almoco ao complexo labirintico de templos que compoem o Perfume Pagoda - sem explicacoes do guia... Perco-me da AV enquanto me aproximo dos gritos humanos estridentes que ecoam pelo ar. De repente, deparo com um vetusto monge, de barba longa e branca, que se encaminha vagarosamente para a sua habitacao. Regresso ao convivio dos restantes turistas para encontrar a AV preocupada e farta de uma irritante suica com a mania de contrariar tudo aquilo que dizemos. Consigo arrancar do guia que o homem avistado eh um dos monges mais considerados do Vietname e que o Perfume Pagoda eh a sua casa. De novo no barco, apreciamos pescadores na faina a largarem pequenas cestas no rio. Nas margens, la estao as impressionantes formacoes de monolitos de pedra, caracteristicas da regiao. Terminado o percurso, nenhum dos quatro ocupantes do nosso barco tem trocos para dar a gorgeta ah remadora, tal como o guia nos tinha ordenado (nem sequer foi uma sugestao, o que nos irritou ja que o folheto da excursao referia que estava TUDO incluido menos as bebidas...). Afastamo-nos da margem pedindo desculpas mas os queixumes nao se fazem esperar. E durante centenas de metros conseguimos ouvir os gritos da remadora, descontente com os "clientes" que lhe calharam.

No Vietname, como constataremos cada dia da nossa estada, um dia nunca acaba quando se pensa e, apesar do cansaco da excursao e da viagem de autocarro que nos coloca em Hanoi, decidimos aproveitar a existencia de bilhetes suplementares para o espectaculo de marionetas de agua a que tentaramos assistir no dia anterior (estava esgotado). Nesta arte desenvolvida devido aos efeitos da moncao, as marionetas movimentam-se numa pequena piscina. Os bonecreiros, com agua ate ah cintura, estao ocultos pelo cenario. As historias e lendas representadas em accoes rapidas, acompanhadas pelos sons de uma orquestra e falas em Vietnamita, criam um universo infantil que diverte sem arrebatar. O arrebatamento estava guardado para o jantar no Little Hanoi (existem dois com o mesmo nome/placa, na mesma rua...) onde os lombinhos de atum agri-doce e as gambas com caju deliciam o paladar sem a bateria de condimentos/especiarias de outras gastronomias. Saboreamos o resto da cerveja no aconchego do restaurante, antes de sairmos para as ruas apertadas do velho bairro, onde a vida decorre, como habitualmente, num fremito de agitacao e de convivio. As lojas, os hoteis, os cafes, bares e restaurantes, os sitios de Internet, ocupam os espacos terreos dos edificios e, se o frio nao for muito, escancaram as suas portas (sao raras as portas fechadas). No Vietname, vive-se (n)a rua, seja num banquinho de plastico disposto no passeio ou encostado ah motocicleta parada quase no meio da estrada. [PMM]

Sexta-feira, Fevereiro 10, 2006

Hanoi: a cidade branca

O despertar faz-se de madrugada. Malas feitas, escadas descidas, encaramos o funcionario a quem anunciamos a nossa partida. Percebemos que nao fica contente. O negocio nao esta em passarmos uma noite num quarto barato, mas sim em estadas prolongadas, entrecortadas pelas excursoes propostas. Tento pagar a conta de sete dolares mas o troco que o rapaz me pretende dar na moeda local (Dong) eh calculado a um cambio manifestamente errado. Resgato a nota de dez dolares, afirmo que afinal pago em Dongs, mas ao cambio dele. A confusao instala-se. O rapaz comeca a esbracejar enquanto vocifera um "You make me angry!!!". Peco-lhe para se acalmar enquanto a AV lhe relembra o episodio da agua... e que talvez devessemos chamar a policia. Contrariado, aceita o pagamento em Dongs, no cambio correcto e justo. Saimos do hotel-pesadelo para as ruas cinzentas de Hanoi. O ceu encoberto, juntamente com o sucedido, nao permite que as cores locais sobressaiam. Mas ah nuvens que nao conseguem tapar a beleza de certos sitios. E, nos dias seguintes que iremos passar em Hanoi, ja instalados num hotel familiar onde o quarto eh pior mas a simpatia e a seguranca maiores, descobriremos uma cidade com brilho.
Desdobramos o mapa para nos abeirarmos do Museu das Mulheres. Pelo caminho fazemos ouvidos moucos aos insistentes convites dos condutores de riquexo e mototaxi ("Where you go???" eh a frase mais ouvida). O museu eh um tributo ao espirito aguerrido da mulher viet, seja em tempo de conflito ou de paz. Percorrido e magnifico espolio espalhado por tres andares, fica-se com a sensacao de que a sociedade vietnamita eh obra exclusiva da classe feminina. O unico homem nao obliterado eh Ho Chi Minh, retratado em varias fotografias que o colocam, em poses de "pai-mentor", entre dezenas de raparigas e mulheres. Mas a (omni)presenca do Tio Ho estende-se as ruas e, inclusive, as nossas carteiras. O rosto de Ho Chi Minh surge em cartazes, tshirts e em todas as notas de Dong.

No caminho para o primeiro de muitos pagodas, a bandeira do Vietname (estrela amarela sob fundo vermelho) torna-se outra presenca constante, volta e meia acompanhada da tradicional bandeira comunista com a foice e o martelo. Estamos efectivamente numa Republica Socialista, mas respira-se um ar de abertura ao mundo, patente nas lojas de marcas ocidentais que partilham paredes com o comercio tradicional. As estradas estao infestadas de motas e "perdemos" tempo simplesmente a ver/fotografar o fluir do transito, numa mistura intensa de cor, som e movimento. A poluicao que procura alojar-se teimosamente nos nossos pulmoes, impele-nos para novos destinos. Encontramos guarida no pagoda do Lago Hoan Kiem, repleto de influencias chinesas (estatua de Confucio, caracteres em faixas e paredes), japonesas (bonsais), e viets (arquitectura), onde os sentidos sao confundidos pelo cheiro a incenso e por altares repletos de oferendas/objectos simbolicos. No magnifico Templo da Literatura, intrincado de construcoes com significado filosofico-espiritual, temos direito a um espectaculo gratuito de musica tradicional. As notas arrancadas pelos artistas aos estranhos instrumentos dispostos no palco contribuem decisivamente para apagar os efeitos da ira matinal do nosso anfitriao vietnamita e a lembranca do ceu cinzento que, la fora, ameaca constantemente desabar em catadupas de agua. E percebemos que serao momentos de descompressao como este que nos irao ajudar a domar este aguerrido "tigre" asiatico. [PMM]

Vietname: o tigre da Asia

A decisao de voarmos pela Vietnam Airlines em detrimento da pouco auspiciosa Lao Air nao evita que sejamos apresentados a um aviao que parece demasiado pequeno. A aeronave eh perfeitamente suficiente para uma viagem tao curta (pouco mais de 1 hora), mas os ultimos voos que efectuamos deixaram a impressao de que os avioes sao todos grandes, gigantes, jumbos... Somos recebidos por hospedeiras de bordo vestidas com uma tunica vermelha, cor com que nos habituamos a conviver durante a travessia do Laos. O voo decorre sem sobressaltos ah excepcao do casal ocidental, sentado nos lugares ah nossa frente, que deu a toda a cabine uma demonstracao ao vivo de um par apaixonado (?), exibicionista e embriagado.
A entrada em solo vietnamita faz-se atraves de um aeroporto moderno que, espero, servirah de uma vez por todas para acabar com a ideia de que estes paises mais "exoticos" sao todos subdesenvolvidos. Os efeitos da India, concluo, demoram demasiado tempo a esvair-se. Passado o controlo do passaporte no qual a AV fica algum tempo retida por nao ter um destino/hotel concreto escrito na folha de entrada (eu tambem nao tinha e nao mo pediram), admiro a ordem do aeroporto enquanto espero que as mochilas aparecam no tapete rolante. Por essa altura ja um rapaz se acercou da AV para lhe mostrar discretamente um folheto de hotel. Exactamente o mesmo alojamento que tinhamos declinado numa abordagem feita ainda no aeroporto do Laos. O certo eh que este marketing inter-nacoes da bastante jeito. Aceitamos ir ver o hotel proposto e somos transportados para a cidade num carro confortavel, por um preco inferior ao que pagariamos se utilizassemos os meios de transporte locais. O servico VIP prossegue com o quarto que nos eh apresentado. TV, casa de banho, cama, quarto, servidos em doses gigantes. Praticamente uma suite -- com frigorifico recheado de aguas, cervejas e colas -- tendo em conta os standards a que estamos habituados.
"Nem tudo o que reluz eh ouro", "o barato sai caro" e por ai fora devem estar a dizer. E com razao. O regresso aos tempos aguerridos do Norte da India inicia-se com o valor pedido pelo quarto, superior ao que nos tinha sido indicado pelos "agentes" em qualquer dos aeroportos. Levamos a nossa avante mas mal descemos para ir jantar somos apanhados por uma senhora que comeca a disparar excursoes e bilhetes e viagens por todos os poros. Quando conseguimos escapar ja vamos com a certeza de que a nossa estada ira ser complicada... Mas talvez nao tanto como atravessar uma simples rua. Aqui no Vietname as motos sao ainda em maior numero do que na Tailandia. E nao param - nem sequer abrandam! - para deixar os peoes passar. A solucao, aprendida a custo e a medo, eh simplesmente comecar a atravessar, num passo lento mas decidido, e nao ceder ah tentacao de parar a meio do caminho, sejam la quantos forem os veiculos de duas rodas que se aproximem ameacadoramente. Simplesmente olhamos determinados para os condutores e confiamos que estes ases da estrada orientarao as respectivas rotas em conformidade com todos os movimentos que entram nesta dificil equacao.
Poderia bem ter sido em vao esta aprendizagem rapida de como atravessar uma rua em Hanoi se, regressados ao quarto, a AV nao reparasse que as garrafas de agua, embora de diferentes marcas, tinham selos iguais. Uma inspeccao pormenorizada revela que todas as garrafas estavam abertas e que os selos eram, portanto, falsos. A ingestao daquela agua, certamente da torneira, poderia causar-nos problemas de saude. O sonho da suite desmorona-se por completo. Ainda por cima, a grande TV apenas conseguia sintonizar um unico canal... Percebemos que, neste Vietname, voltaremos a precisar dos sentidos em estado de alerta. Antes de apagarmos a luz para descansar de um dia cansativo ja tomaramos a decisao de nos levantarmos cedo para procurar novo pouso. [PMM]

Quinta-feira, Fevereiro 09, 2006

Vientiane: entre o sublime e o surreal

No primeiro dia de 2006 comprometemos o nosso orcamento semanal e aprendemos uma licao: o dia 1 de Janeiro nao eh o melhor para viajar. Chegamos a Vientiane -- capital do Laos -- e todas as guesthouses estao cheias. Os quartos que nos mostram sao escuros e bafientos e nos achamos que neste dia festivo merecemos melhor. Para isso, temos que gastar mais do que previsto em alojamento. Optamos por um local cheio de cor e madeiras escuras, televisao (com canal de desporto para deleite do PM) e casa-de-banho com azulejos de vidro. Um verdadeiro luxo depois da viagem que fizemos apertados num suposto VIP bus, partilhado com tres simpaticos brasileiros de S. Paulo.
No dia seguinte a festa continua em Vientiane. Eh feriado nacional e algumas pessoas comemoram nas ruas o Ano Novo. Ah porta das casas comem, ouvem musica e bebem cerveja. Quando passamos desejam-nos felicidades com sorrisos rasgados de quem esta realmente a divertir-se. A cidade esta deserta como Lisboa aos domingos, mas deixa transparecer uma vitalidade de adolescente que comeca a querer libertar-se dos pais. O consumo comeca a despontar e os precos praticados sao muito elevados. Os restaurantes esforcam-se por imitar os franceses, nao so no nome mas tambem na quantidade infima de comida que servem.
Os templos de Vientiane sao lindissimos, mas o Pha That Luang eh o mais importante monumento nacional, gracas ah impressionante stupa dourada de 45 metros, que serve de motivo a dezenas de postais ilustrados e de fundo a fotografias de familia. Eh impossivel ficar indiferente ao belo, assim encontrado no meio de um ceu azul sublime, sobretudo depois de nos termos deparado com o estranho Arco do Triunfo ca do sitio -- uma grande estrutura inacabada, ainda por rebocar e pintar, construida com cimento oferecido pelos EUA, em 1969, para a instalacao de um novo aeroporto na cidade. Oficialmente designado Patuxai, o monumento destina-se a homenagear os soldados que morreram nas guerras pre-revolucionarias.
A bizarria nao fica por aqui. A cerca de 24 Km de Vientiane descobrimos o Xieng Khuan, tambem conhecido por Buddha Park. Uma consideravel extensao de terreno adornada com centenas de esculturas de deuses hindus e budas reclinados, deitados ou em posicao meditativa. Passeamos por ali debaixo de um calor torrido e, nao sabemos se eh fraqueza ou outra coisa, mas parece que aqueles olhos todos nos perseguem sem descanso. Pelo sim pelo nao, deixo flores nas maos de uns quantos, depois de ter entrado na surreal boca de inferno que nos recebe ah entrada do parque concebido pelo artista-espiritual Luang Phu Boon Lua.
Tal como no resto do mundo, tambem no Laos os jornais fazem retrospectivas e balancos nos ultimos dias de Dezembro. Gracas aos periodicos em ingles (atrasados, mas sempre sao melhor que nada) que conseguimos encontrar na Joma (a patisserie onde todas as manhas perdemos a cabeca e aliviamos os bolsos), fico a saber que apenas em 2005 um medico lao conseguiu realizar, com sucesso, a operacao ao coracao de uma mulher de 24 anos e de um miudo de quatro. Os meios usados e que permitiram a proeza foram todos disponibilizados pelo Luxemburgo.
Eh com esta noticia que volto a lembrar-me que o Laos eh um dos paises que integra a lista dos menos desenvolvidos do mundo. Talvez o Governo atinja a meta que persegue e em 2020 esteja na lista oposta. A avaliar pela quantidade de homens ocidentais que encontramos a passearem com mulheres asiaticas percebemos os receios de uma ou outra pessoa com quem falamos: que o Laos se transforme noutra Tailandia. Ate porque este eh o modelo mais copiado por estes lados. Os apertados jeans comecam, paulatinamente, a substituir as tradiconais saias compridas com barra bordada e as motas ja dominam o transito sem piedade. [AV]

Terça-feira, Fevereiro 07, 2006

Vang Vieng: 'countdown' radical

Depois de experimentarmos os autocarros do Laos nao queremos outra coisa. A viagem para Vang Vieng faz-se num veiculo estranhamente em boas condicoes, mas que num apice enche ate nao poder mais. Os banquinhos de plastico ja estao a postos e permitem-me conviver de perto com as unhas grandes (muito comuns tambem no sudeste asiatico) dos dois senhores que ombreiam comigo durante as sete horas de viagem. Apesar do desconforto geral (as curvas no abismo sucedem-se outra vez), os passageiros contam anedotas uns aos outros e um deles comeca a tocar uma especie de gaita, deixando toda a gente bem-disposta, a cantarolar e a bater o pe.
O frio da montanha entra pelas janelas que eles insistem em manter escancaradas e nos fazemos a viagem embrulhados nos nossos casacos e lencos. Numa parte do caminho o nevoeiro atravessa-se ah nossa frente e deixamos de ver curvas, montanhas, ou o que quer que seja.

O mundo eh pequeno -- ja toda a gente sabe disso, bla-bla-bla -- mas nesta etapa da viagem parece-nos ainda mais infimo. De tempos a tempos cruzamo-nos com pessoas que atravessaram a fronteira connosco ou ate que conhecemos no curso de culinaria que fizemos em Chiang Mai. Os ingleses Dick e Jane sao um caso desses. Estiveram no slowboat e tambem no autocarro para Phonsavan, mas so hoje, numa das paragens a caminho de Vang Vieng, temos oportunidade de falar com eles. Ha uma empatia imediata entre nos. Apesar da diferenca de idades, cada um de nos parece sentir necessidade de ficar ali a conversar mais um bocadinho. Em menos de cinco minutos percebemos que pensamos a vida da mesma maneira e em menos de tres trocam-se confidencias. Eu tenho a alma aconchegada por aqueles pais emprestados que encontro. O PM tem um sorriso genuino estampado no rosto.

O autocarro para em Vang Vieng para nos deixar sair. Parece que chegamos a uma cidade fantasma. Ha po no ar e uma pista de aterragem, deixada pelos norte-americanos. A cidade eh composta por uma rua principal e duas ou tres perpendiculares. Tudo parece estar por acabar. As estradas estao por fazer, ha buracos por todo o lado e a construcao dos edificios foi interrompida a meio. A unica coisa que parece funcionar bem eh o turismo, atraido por uma paisagem deslumbrante. Por detras das casas feias e da poeira que se levanta de cada vez que uma mota passa ha um cenario magnifico. O rio eh calminho e claro; nas margens ha toldos de colmo que dao sombra a estrados de madeira onde podemos passar horas infinitas a ler, a ouvir o marulhar das aguas, a seguir os movimentos de uma libelinha ou a fazermos a meditacao que nunca conseguimos fazer em Alges por causa do barulho do cao que vive no andar de baixo.
Pensamos alugar bicicletas para explorar cavernas, equacionamos fazer caminhadas ou andar de caiaque, mas nada nos consegue arrancar desta paz preguicosa. O 'tubing' foi mesmo a coisa mais radical que conseguimos fazer. Na companhia do Dick descemos o rio Nam Xong, enfiados numa camara-de-ar de pneu de camiao. Num curso de agua quase sem corrente, somos obrigados a dar aos bracos e aos pes para avancarmos e nao adormecermos. A pasmaceira so eh interrompida pelos rapazes que nos querem vender Beerlao ao longo do percurso
(e opium, para quem precise de relaxar ainda mais).
Como nao podia deixar de ser, fizemos a contagem para 2006 com essa bebida ubiqua na mao (Beerlao, mas preta) e com os nossos novos amigos ao lado. Vang Vieng eh famosa pela vida nocturna, mas nesta noite vimos apenas um timido fogo-de-artificio e ouvimos um karaoke distorcido. Estranhamos a inexistencia de festarola mas aproveitamos para conhecer melhor este casal que decidiu gastar o que lhe resta (dinheiro e anos de vida util) a viajar por ai. So uns dias mais tarde, quando chegamos a Hanoi, alguem nos diz que a passagem de ano em Vang Vieng foi de arromba mas... a uns bons metros de distancia do local onde estavamos entretidos na conversa com uma mulher que passou anos a chefiar a cantina de uma escola e um oleiro que se tornou enfermeiro numa instituicao psiquiatrica. [AV]

Phonsavan: marcas de guerra

No Laos somos obrigados a abrandar o ritmo. Um pequeno-almoco pode demorar 40 minutos a ser servido e a velocidade de um autocarro publico nao ultrapassa os 20 Km/h. Apesar de alguns guias desaconselharem este meio de transporte para as nove horas de viagem que separam Luang Prabang de Phonsavan, decidimos dar o beneficio da duvida e la fomos nos. Chegamos cedo ah estacao e minutos depois alguem encaminha-nos para uma especie de autocarro indiano mas com janelas e bancos que ja foram estofados. O veiculo poe-se em movimento, chocalha por todos os lados abanando os locais, obrigados a partilhar o seu transporte com alguns ocidentais, mais os sacos de uns e as mochilas de outros. O tejadilho vai apinhado de motas, sacas e outros volumes. A estrada comeca a serpentear por montanhas e vales, num alcatrao inesperado mas mesmo assim estreito. As curvas sinuosas e apertadas mostram-nos um abismo de vegetacao verde e provocam o vomito a muitos passageiros (o PM engoliu um Viabom para impedir as queixas do estomago). Parecemos pudins a abanar la dentro e quase a cair para cima uns dos outros. Tal nao eh dificil porque muito depois de a lotacao estar esgotada continuaram a deixar entrar passageiros, rapidamente acomodados em banquinhos de plastico espalhados ao longo de todo o corredor do autocarro. Durante o caminho paramos diversas vezes - ou porque o motorista detecta um problema mecanico ou porque alguem precisa de ir atras dos arbustos. Nestas ocasioes aproveitamos para demorar os sentidos na paisagem, nas nuvens que ornamentam cumes como nos desenhos infantis, ou nas casas que o nosso imaginario reserva para as aldeias tradicionais, construidas em cima de estacas de madeira e com telhados de colmo. As pessoas vivem ah beira da estrada indiferentes a quem passa. As maes catam os filhos, raparigas tomam banho em soutien, grupos de miudos jogam ah bola.
Chegamos a Phonsavan no dia 27 de Dezembro. Poucos minutos sao suficientes para identificar as diferencas em relacao a Luang Prabang. Phonsavan eh apenas uma cidadezinha construida em torno de uma estrada. Portanto, sem o selo da UNESCO. Restaurantes e guesthouses de um lado e doutro. Tudo a viver ah custa do Plain of Jars - o motivo por que nos aqui viemos. Dezenas de jarros enormes de pedra estao dispostos nas montanhas da regiao. Ninguem sabe como foram ali parar nem com que objectivo foram construidos. Sabe-se apenas que existem ha mais de tres mil anos. Embora a imensidao dos gigantes recipientes nos tenha surpreendido, aquilo que mais nos impressionou foi descobrir as dezenas de crateras gigantes deixadas pelas bombas norte-americanas. O Laos guarda o triste recorde de ter sido um dos paises mais bombardeados de toda a historia. Entre 1964 e 1973 os EUA levaram a cabo cerca de 580 mil missoes aereas sobre o territorio, largando 2 milhoes de toneladas de bombas. Mas esta foi uma "guerra secreta", explica-nos o guia, pelo que ainda hoje os EUA recusam assumir quaisquer responsabilidades neste dominio. Nao ha registos da ocorrencia, eh a resposta oficial. Apesar disso, as crateras estao la. Assim como o orfanato que todos os dias acolhe criancas cujos pais morrem vitimas dos explosivos deixados no territorio. Estima-se que serao necessarios mais de 100 anos ate que o pais seja considerado totalmente seguro, mesmo com as Nacoes Unidas e outras organizacoes a desenvolverem um trabalho continuo de limpeza.
Eh com estas marcas de guerra que convivem diariamente os habitantes de Phonsavan. Mesmo assim, tentam esquecer o que la vai e ate fazem humor negro com os lagos que os EUA lhes ofereceram de presente (ou seja, as crateras).
Por causa dos transportes somos obrigados a ficar duas noites nesta terra triste e ainda temos oportunidade de descobrir dois clubes nocturnos na estrada principal. Num deles -- Soccer, assim se chamava --, iluminado a neons convidativos, vemos um casal de ocidentais entrar e sair logo de seguida. Ainda hoje nos questionamos sobre o que se estaria a passar la dentro, mas acreditamos que, no Laos ou noutro pais qualquer, a coisa nao deve ser muito diferente. [AV]

Quinta-feira, Janeiro 19, 2006

Luang Prabang: Natal chique

Passear pelas ruas de Luang Prabang eh tao facil e agradavel que ate custa a acreditar que estamos num pais subdesenvolvido. A cada passo que damos no centro historico da cidade surpreendemos-nos com o elevado estado de conservacao de alguns edificios e constatamos os inumeros estaleiros que prometem mais restauros para breve.
A presenca dos franceses nota-se em cada esquina. Nao so dos franceses colonizadores -- que aqui deixaram uma marca fortissima na arquitectura, nos menus escritos em frances, e ate nas baguetes de pao vendidas na rua -- mas tambem nos franceses que resolveram fazer do Laos um destino turistico de eleicao e hoje enchem templos e restaurantes com excursoes familiares.
Sabe-nos bem andar sem rumo e ate parece que somos so mais dois a passar as ferias de Natal/Ano Novo no estrangeiro. As vezes, neste passear despreocupado tenho a sensacao de estar a passar os olhos pelas paginas de uma revista de viagens dirigida a classes altas. As madeiras escuras no chao e nas varandas das casas remetem-nos para um universo colonial de que ouvimos falar nas aulas de Historia ou recordamos de filmes que vimos ou livros que lemos. Mas os sorrisos de toda a gente, iluminados por lanternas de papel, transportam-nos para um mundo que ainda existe. So nao sabemos se eh real ou fabricado para estes turistas que vestem calcas claras vincadas, pullovers azuis-escuros e camisas de risca. Esperamos descobri-lo quando sairmos daqui.
Mas por agora, sabe-nos bem fechar os olhos e nao pensar em nada. Alias, acabamos por perceber que isto de passar a quadra festiva longe de casa ate tem coisas boas. Eh que nao temos que nos preocupar com rigorosamente nada. Nao ha prendas para comprar, jantares para confeccionar, nem sequer temos anuncios televisivos a criar necessidades que nao existem. Nada. Aqui estamos so nos. Nem sequer estranhamos a ausencia do bacalhau na noite da consoada, substituido por uma massa com frango agridoce, salada de papaia, salsicha nacional e a inconfundivel Beerlao -- a cerveja do Laos que nos persegue por todo o lado com um marketing tao agressivo que ate doi. Mas que ate se compreende: eh que neste pais comunista, a abertura ao ocidente ja se fez ha muito e a Carlsberg, percebendo o potencial daquela que eh conhecida como a melhor cerveja do sudeste asiatico, tratou de comprar a marca e hoje inunda os turistas com t-shirts, sacos (temos um!) e canetas da realmente fantastica Beerlao.
Mas nao pensem que a nossa vespera de Natal foi passada so entre garrafas de cerveja. Nao senhora! Tivemos tambem programa cultural, gracas aos espectaculos organizados de proposito para os ocidentais (porque no Laos budista nao ha Natal) pelo Royal Ballet Pralak Pralam, com dancarinas de saia comprida e sorriso de Gioconda a enfeiticaram todos os homens da assistencia que tinham conseguido resistir, nas ruas da cidade, aos apelos de "Lao massage". Tal como na Tailandia, tambem aqui se oferecem massagens ao pontape (e ao pe)... mesmo que nos garantam "same same, but diferent". [AV]

Terça-feira, Janeiro 10, 2006

Tailandia-Laos: Mekong em camara lenta

Atravessar o Mekong foi a forma que escolhemos para chegar ao Laos. No dia 21 de Dezembro iniciamos a primeira de tres etapas de uma viagem que so estaria concluida no final de dia 23. Apesar de tudo o que lemos sobre os inconvenientes de optar pela via fluvial, acabamos por querer fazer assim mesmo. E nao nos arrependemos.
A primeira parte da viagem eh feita numa carrinha tipo Hiace, juntamente com outros ocidentais que querem fazer o mesmo que nos. Ao meu lado, tenho as pernas e os bracos de um americano antipatico, que se estica como se estivesse na casa dele. So me consigo ver livre deste rapaz hiperactivo em Chiang Khong, pequena cidadezinha sem historia no Norte da Tailandia. O frio atravessa-nos os ossos e eu sou a unica a acreditar na historia da agua quente disponivel nos balnearios instalados em barracoes nas traseiras dos bungalows (serviu-me de licao, ah pois serviu!). A janela da cabana de madeira que nos eh atribuida nao fecha e o PM obriga um dos empregados da guest house a dormir sem o seu proprio cobertor.
Na manha do dia seguinte reiniciamos uma sucessao de entradas e saidas em carrinhas que nos levam ate ao controlo de passaportes. Eh entao que, quase sem darmos por nada, ja estamos no Laos. Depois de eu tanto fantasiar sobre esta passagem fronteirica, dou por mim a chegar a Huai Xai sem pompa nem circunstancia, depois de uns miseros 10 minutos num barquinho rasteiro. Senti-me como uma especie de noiva surpreendida com a rapidez da sua noite de nupcias.
Novo controlo de passaportes e vistos e, pela primeira vez, encontramo-nos milionarios. Logo ali na fronteira trocamos uns dolares por kips (moeda do Laos) e ficamos sem saber como transportar os macos de notas que nos passam para a mao. So para terem nocao, um dolar corresponde a cerca de 10 mil Kips.
Dai a cerca de uma hora estamos a escolher o banco de madeira em que seguiremos sentados durante o resto do dia, com o Mekong por companhia. Estamos prevenidos com toalhas a fazerem de almofada e polares para cortar o frio. A meio da viagem ja nao sabemos o que fazer as pernas, porque a inclinacao lateral do casco do barco nao nos deixa sentar a direito com os pes assentes no chao.
Mas tudo isto eh pequenino e insignificante quando olhamos para a paisagem que nos envolve os sentidos durante horas e quilometros. As margens do rio oferecem-nos extensoes infindaveis de terra e vegetacao. Nao ha casas nem carros. Mas ah areia branca e um ou outro barco que passa por nos a transportar generos. Eh poetico e carregado de frases feitas, este cenario. A beleza tem destas coisas.

So ocasionalmente somos acordados deste torpor, quando os speed-boats passam por nos a uma velocidade alucinante, deixando um rasto de barulho ensurdecedor (nos seguimos em slow-boats, mas ha quem opte por fazer a viagem em speed-boats, demorando apenas oito horas a fazer um percurso que nos fazemos em dois dias. Diz quem sabe que a experiencia do speed-boat eh terrivel e traumatizante, nao so pelo barulho dos motores - que podem deixar sequelas durante dias - mas tambem pelo elevado risco de acidente).
Sao talvez 17h30 e a noite ameaca cair de um momento para o outro. O barco atraca em Pak Beng, localidade onde iremos passar a noite. Depois de me passarem a mochila para os bracos tenho um ataque de riso desesperado. Ali estou eu, do outro lado do mundo e sem conseguir dar um passo, presa pelo peso da bagagem. Ah nossa frente esta uma ravina de areia. Eh preciso subir a montanha para chegar a Pak Beng. No meio das gargalhadas, digo ao PM que nao vou conseguir chegar la acima, porque se mexo os pes caio para tras, puxada pela mochila.
Acabo por conseguir trepar a ravina e chegar a uma guesthouse toda construida em madeira. Primeira surpresa: no meio do nada, temos uma casa-de-banho com sanita. Segunda surpresa: numa aldeia do Laos que se calhar nem vem no mapa, encontramos uma rua repleta de restaurantes, hoteis e lojas que vendem Pringles, televisoes de ecra plano e VCDs piratas. Sao os efeitos do turismo, que ali se faz sentir apenas por causa desta paragem, a caminho de Luang Prabang.
Na manha do dia seguinte tomamos o pequeno-almoco na rua, sentados na mesma mesa onde a nossa anfitria prepara as sandes que serao o nosso almoco. Voltamos ao cais e conseguimos entrar num barco com almofadinhas. Em contrapartida, temos que partilhar o assento um com o outro. No caminho dou por mim a olhar para a paisagem e a tentar descortinar onde acabara este sonho que encontro enquadrado pelo caixilho de madeira das janelas sem vidros.
Com um por-do-sol magnifico chegamos a Luang Prabang. No momento em que comecamos a procurar um sitio para ficar, apaixono-me pela cidade. E percebo o encanto que a UNESCO lhe deve ter encontrado para a considerar patrimonio mundial. [AV]

Ja a seguir: Natal com massa e frango sweet and sour, acompanhado por salada de papaia e salsicha do Laos

Competicao do postal ilustrado

Como gostamos e precisamos muito, mas mesmo muito, de receber/ler as vossas palavras aqui neste cantinho, aderimos ah moda em voga na esfera bloguista e iniciamos aqui um pequeno concurso... Por cada pais que passarmos (ah excepcao da India), iremos atribuir um premio ao melhor comentario, critica, dissertacao, declaracao de amor, ou seja la o que for que seja deixado no nosso blog. O vencedor sera anunciado no blog e devera enviar-nos um email para lobossemestepes@gmail.com com a morada em que deseja receber o nosso fabuloso premio: um postal ilustrado relativo ao pais a que se refere esse post/comentario. Mas fica ja o aviso aos futuros vencedores: preparem-se para que este faustoso premio demore algumas semanas a chegar e nao liguem se o selo postal for de um pais diferente ao da paisagem ilustrada... :-) Neste momento estao a decorrer competicoes para os destinos Tailandia (pais onde ainda teremos de regressar) e Laos. E sempre que surgir um novo pais no blog, inicia-se uma nova competicao.

O que nos nao fazemos para receber umas palavras vossas. :-)

PS - Esta competicao NAO eh patrocinada pelos servicos postais dos paises por onde passamos...

Terça-feira, Janeiro 03, 2006

Chiang Mai: turismo em "pacotes"

Quando uma viagem de autocarro com a duracao de sete horas apenas resulta numa historieta para contar, eh altura de nos compenetrarmos que a viagem vai ser, doravante, diferente. A paragem do veiculo na berma da autoestrada de forma ah cobradora dos bilhetes poder sair, de martelo na mao, e trucidar uma arvore recolhendo as cascas extraidas para dentro de um saco de plastico, enquanto um monge aproveita o tempo morto para aliviar a bexiga a cerca de dois metros da porta, agachado e com a tunica cor-de-laranja quase a nao ser suficiente para tapar as partes baixas, funciona como um fait-divers que nos relembra nao estarmos num qualquer pais europeu. Mas quase parece.
Chegados a Chiang Mai, e ultrapassado mais um 'cabo das tormentas' (a negociacao do transporte para a guesthouse escolhida por um preco aceitavel), somos recebidos efusivamente pela mulher que sera a nossa anfitria durante cerca de cinco dias. Tenta e consegue fazer-nos sentir em casa para depois, mal nos apanha a jeito, comecar a bombardear-nos com as varias actividades promovidas pela guesthouse. Dado que o alojamento tem precos simpaticos (cerca de 4 euros por noite num quarto com casa de banho privativa e agua quente) concluimos que o grande negocio de algumas guesthouses consiste nas varias actividades paralelas que promovem. Trekkings de varios dias, excursoes de elefante, rafting, aulas de culinaria... ha varios "pacotes" organizados de forma a contentar os turistas.
Chiang Mai eh uma das principais urbes da Tailandia. Serve de porta de entrada para a regiao montanhosa que se estende ate ash fronteiras com o Laos e o Myanmar. Apesar de populosa, respira-se bem no nucleo da cidade, 'protegido' do trafego mais intenso pelos restos de uma muralha e um fosso. Eh neste quadrado central que visitamos os wats mais importantes. Depois das ruinas de Sukhothai eh agradavel poder admirar a riqueza dos pormenores decorativos dos tectos, paredes, escadas e portas, ou a profusao de estatuas de Buda que se encontram nos altares. Os recintos onde encontramos os templos sao compostos por varios edificios e fervilham de vida. Ao corropio de monges, novos e jovens, com as suas vestimentas garridas e uma alegria que geralmente nao costumamos associar aos que pertencem a ordens religiosas (jogam ah bola, ouvem MP3, e ate dao pontapes nos traseiros uns dos outros), juntam-se turistas e devotos autoctones. Esta romaria assume dimensoes dignas de Fatima no templo Doi Suthep, erigido no cimo de uma montanha e que consiste num dos locais de peregrinacao mais importantes da Tailandia. Alem de muito belos, estes locais caracterizam-se pela energia positiva que parecem emanar. Apetece sentar num banco ah sombra de uma arvore e simplesmente contemplar.
Mas nao ha hipotese de fugir ah simpatica/terrivel anfitria Bou Bou e rapidamente comecamos a nossa viagem pelas actividades promovidas pela guesthouse. O nosso curso de culinaria comeca logo pela manha. De cestinhos na mao e acompanhados por uma inglesa, um americano, e dois belgas (que se haveriam de tornar os nossos grandes companheiros de Chiang Mai), somos conduzidos ao mercado local para conhecer melhor os cheiros, cores e sabores dos produtos utilizados na cozinha tailandesa. Ao pitoresco passeio segue-se um longo dia culinario onde aprendemos - com uma professora cujo ingles era bastante arrevezado - a preparar seis pratos. Como o curso era teorico-pratico tivemos todos de pegar nos tachos e nos woks, cortar alimentos, preparar pastas de caril, fazer caldas... e ate, temor dos temores, fritar em oleo! Julgo que passamos com distincao, ate porque nao sobrou praticamente nada (a AV comeu os pratos todos dela!). Foi de tal a barrigada que deu azo a um enjoo da saborosa comida tailandesa e ao consequente refugio nas pizzas e pastas italianas. E bastou contrariar a purga com mais uns petiscos orientais... para os resultados serem desastrosos. Passei uma noite a vomitar e desde entao que nao posso pensar/ver/cheirar alguns ingredientes.
Felizmente que o almoco incluido na nossa segunda actividade em Chiang Mai era tao mau - e incaracteristico - que a memoria apenas vai guardar a recordacao de andar de elefante, descer um rio numa canoa de bambu e visitar duas aldeias "etnicas". Partimos para este tres-em-um com a nocao de que iriamos fazer algo realmente turistico (aqui aplicado no mau sentido). E assim foi. Da viagem de elefante fica a experiencia de nos sentarmos no cimo deste magnifico animal que demonstra uma estabilidade em terrenos acidentados superior a qualquer 4x4 (e vamos tentar esquecer o circuito de venda de bananas "para tornar os animais felizes" que estava montado ao longo do percurso...). O rafting permitiu apreciar tranquilamente a beleza do rio, mas os rapidos insignificantes que nos molharam o rabo acabaram por despertar a vontade de experimentar sensacoes de mais adrenalina. E as visitas as aldeias serviram para despoletar um debate sobre a influencia do turismo nas minorias etnicas locais: eh que se uma das aldeias parecia manter habitantes com alguns tracos de genuidade, a outra era uma enorme falsidade. E entre as bancadas de pecas artesanais, supostamente fabricadas pelos membros da tribo, ate se encontrou um cinto cor-de-rosa com a marca Diesel estampada.
Debate semelhante mereceu a paisagem nocturna de Chiang Mai. Varias ruas estao polvilhadas de bares de prostitutas e aquilo que em Sukhothai surgia tenuamente, aparece agora na sua real dimensao: nao se encontra um farang (turista) ocidental sozinho. Os que nao estao acompanhados por uma mulher ocidental, estao abracados a uma tailandesa. Ou duas. Nos proprios, na ultima noite em que passamos pelos bares repletos de mulheres (bem vestidas, bem pintadas, muitas delas bem bonitas), saimos de la com tres. Livros, comprados numa bookstore praticamente encravada entre um salao de massagens e um bar de meninas.
Eh ja com o peso e companhia de duas autobiografias (Marlon Brando e Gandhi) em segunda mao e dois romances ("Identidade" do Kundera e "Vernon God Little" de DBC Pierre), e mais um endereco na nossa agenda (a morada do casal belga, Marc e Annemie, que nos fez companhia ao longo de dois jantares seguidos de incursoes nocturnas onde se conversou - muito! -, bebeu - pouco! -, e jogou snooker) que iniciamos a longa jornada ate ao proximo destino: o Laos. [PMM]

Segunda-feira, Dezembro 26, 2005

Sukhothai: Regresso ao futuro entre ruinas do passado

Quando H.G. Wells escreveu "A Maquina do Tempo" esqueceu-se de olhar para a Tailandia. Nao sao precisas maquinas complicadas para andar no tempo. Vejo-me ao espelho, na primeira manha que acordamos na Tailandia, e sinto-me bem. Envelheci mais de 500 anos mas quase nao se nota. Estamos a 13 de Dezembro de... 2548, ano do Senhor que nestas paragens dah pelo nome de Buda. Revejo a face reflectida e sinto-me quase tao novo como Sua Majestade, o rei da Tailandia, na pujanca dos seus 78 anos (eh o monarca do mundo que reina ah mais tempo, tendo subido ao trono com 18 anos). A presenca de Bhumibol Adulyadej supera a do proprio Buda. Sua Majestade nao eh omnipresente. Eh bem presente. As notas da moeda local tem todas a efigie do monarca e manda o codigo que nao as amarrotemos ou deixemos cair... Os calendarios prescindem de imagens de meninas em poses sensuais para dar primazia ao retrato de Bhumibol. E sao incontaveis os posters e cartazes de um rei vicoso, jovial, que se avistam em placares pelas ruas e estradas do pais. Sao autenticos altares onde se pratica o culto a um homem que os tailandeses veem como uma figura paternal. Uma especie de conciliador das querelas sociais e politicas, que esta sempre atento para evitar os excessos.
Dificilmente haveria melhor local do que Sukhothai para tambem nos comecarmos a venerar a monarquia. A poucos quilometros da nova cidade jazem as ruinas da antiga capital da primeira nacao Thai. Em 1238, escorracados os Khmers do local, ergue-se uma cidade monumental ah beira do rio Yom. Os vestigios arqueologicos desta epoca de excepcao, considerada o periodo de ouro da Tailandia, estao concentrados no magnifico parque historico da velha Sukhothai. Eh de bicicleta que percorremos as estradas do recinto, sob a sombra das arvores que povoam as bermas. Os relvados estao bem tratados e a tonalidade verde que exala frescura contrasta com os canteiros de flores coloridas. Ha lagos com nenufares e flores de lotus. E, claro, ruinas de templos, ratificadas pela UNESCO como patrimonio mundial. A serenidade sentida na noite anterior acaba reforcada pelo passeio e damos por nos a mimetizar o sorriso placido, contido e contagiante que vislumbramos nas varias estatuas de Buda encontradas ao longo do dia. Apos a profusao (e confusao) de divindades indianas, eh um alivio sermos sempre recebidos pela imagem de Buda. Mas tal como o ditado preferido aqui do local ("Same, same... but different"), cada estatua parece possuir uma verdade exclusiva. A descoberta eh, deste modo, sempre diferente apesar das igualdades.
A hora do almoco traz mais uma achado: a gastronomia local. Basta um pad thai - o prato tipico do pais - com a sua mistura de noodles, vegetais, amendoim e ovo para uma rendicao (quase) incondicional. A comida tailandesa apela a todos os sentidos: eh visualmente apetecivel, cheira bem, sabe ainda melhor. E parece preparada com higiene, mesmo quando se trata de "restaurantes" ah beira da estrada. Recomposto o estomago, passamos o resto da tarde a viajar de templo em templo, aproveitando cada minuto em cima do selim para relembrar os tempos de infancia e juventude, enquanto assobiamos o tema da mitica serie Verano Azul. A felicidade prolonga-se pela viagem de songthaew (autocarro colectivo composto por uma caixa aberta que contem dois bancos de madeira corridos, um frente ao outro) que nos leva de volta ah nova Sukhothai, feita em ritmo lento e com paragens aleatorias para deixar entrar e sair passageiros.

O ar fresco na cara sabe tao bem que no dia seguinte resolvemos repetir a dose, desta vez no parque historico de Si Satchanalai. Ja de bicicleta, encontramos um conjunto de ruinas em pior estado de conservacao e que nao permitem vislumbrar a imponencia de outrora. O passeio volta a valer a pena pelas pedaladas. Estamos de tal forma empolgados que nos propomos a fazer mais 10 km para ver um museu dedicado aos fornos de Sangkhalok, local onde na antiguidade se produziam pecas de olaria exportadas para varias partes do mundo. O pequeno museu, apesar da ausencia de legendas em ingles, esta extraordinariamente bem arranjado. Mas eh o percurso que nos leva ao local que compensa o esforco. A passagem por uma zona mais rural e menos turistica permite apreciar calmamente a arquitectura das casas de madeira, muitas delas construidas em cima de estacas, enquanto respondemos aos "hellos!" genuinos que nos sao enviados pelas pessoas ah beira da estrada.
Esta eh a grande arma do povo tailandes. Uma simpatia genuina e desarmante. Este espirito acaba por nos contagiar de tal forma que ficamos com problemas de consciencia sobre o local que escolhemos para almocar. Sao tres os restaurantes que partilham o mesmo telheiro e todos com senhoras simpaticas a receberem-nos. Terminada a refeicao, mitigamos um pouco do mal estar sobre a nossa seleccao inicial (passamos o tempo todo a dizer "coitada da senhora do lado, nao tem la ninguem!", mudando para o restaurante a seguir ao nosso a fim de beber um Expresso. O qual, apesar de anunciado num letreiro em caracteres generosos, tem de ir ser requisitado pela nossa nova anfitria ao estabelecimento de onde acabaramos de sair... Os sorrisos, generalizados por todos os intervenientes nesta rabula sobre "boas intencoes", transformam-se em puro riso.
O regresso de autocarro ah velha Sukhothai eh feito por entre a alegria efusiva dos jovens acabados de sair da escola, com as suas fardas compostas por camisa branca e calcao/saia azul, que invadem o autocarro. Jantamos na nossa guesthouse com a sensacao da primeira etapa tailandesa estar cumprida. A viagem pode prosseguir na manha seguinte. Antes disso, a AV resolve presentear os varios rapazes que olhavam distraidamente o filme a passar na TV da guesthouse com um quadro (in)esperado. Na intencao de telefonar ah tia em horas portuguesas decentes, a chamada teve de ser feita por volta das 23 horas locais. Para cumprir esta vontade de sobrinha, eh necessario chamar a empregada que melhor fala ingles, a qual ja se encontra deitada. Dito e feito. Momentos depois, surge pela porta a lindissima rapariga, coberta por um mini roupao esvoacante de seda. E nunca tantos homens suspiraram para que um telefonema feminino durasse, se possivel, uma eternidade. Estava apresentada a mulher tailandesa, que tera um papel ainda mais determinante no proximo destino: Chiang Mai. [PMM]

Tailandia: Goodbye India, sawatdii Tailandia!

Por entre receios de gripe das aves, preconceitos europeus sobre a Tailandia (como o pais resumir-se a uma estancia balnear e/ou sexual), e uma quase inexplicavel nostalgia de abandonar a India, embarcamos no aviao com destino a Bangkok. Voamos na Cathay Pacific, considerada em 2005 como uma das melhores companhias de aviacao mas certamente nao pela comida que servem em classe turistica. Decepcionante, ah excepcao do croissant fresquinho...
Mal o aviao comeca a baixar surgem os primeiros sinais de que o nosso proximo destino eh capaz de ser um pouco diferente da India onde passamos as ultimas seis semanas: enquanto a aeronave aterra, joga-se golfe num campo situado mesmo ao lado da pista. Este insolito dah lugar a um espanto quase infantil ao verificarmos a grandeza do aeroporto onde aterramos, cheio de longos corredores e uma quantidade assombrosa de postos para verificacao dos passaportes (onde julgo que nos tiraram uma fotografia as iris). Passada a primeira barreira deparamos com lojas dutyfree certificadas com ISOs 9001... Percebemos que ja nos tinhamos esquecido como os aeroportos podiam ser asseados, grandes, brilhantes, quase bonitos. E com papel higienico nas casas de banho.
Recolhidas as mochilas que mais pareciam filhotes de Alien por estarem embrulhadas num casulo de celofane (servico prestado no aeroporto de Mumbai em troca de umas largas rupias) dirigimo-nos para o proximo choque: onde estao os rickshaw-wallahs que nos tentam levar prontamente para o seu veiculo a "precos de saldo" e com promessas de terem a melhor guesthouse da cidade? Ah, aqui estao eles, ou melhor, elas, devidamente fardadas e identificadas. As "wallahs" daqui pertencem a cadeias internacionais de rent-a-car e procuram impingir limousines ate ao centro da cidade. Mas desistem ao primeiro "no, thank you" o que nos deixa livres para apanhar um taxi (onde foi preciso dizer tres vezes ao motorista para utilizar o taximetro...) e procurar cumprir o plano tracado no aviao: apanhar um autocarro para Suthokhai, cidade no centro da Tailandia, e deixar a visita a Bangkok para daqui a um mes e meio, altura em que teremos de regressar ah capital do pais para apanhar novo voo.
O percurso pela autoestrada que nos leva ao terminal dos autocarros eh surpreendente. Nesta via de piso impecavel circulam automoveis modernos, a velocidades moderadas e cumprindo as regras de transito. Decididamente, um mes e meio na India chega para esquecermos que existem locais com regras. E que estas podem ser cumpridas. Na estacao de autocarros temos o primeiro contacto mais intimo... ou melhor, contacto mais proximo, com a Tailandia. O terminal eh o mais ordenado possivel, com espaco adequado para inumeras carreiras para todos os pontos do pais. Nao ha lixo no chao, seja nos passeios ou nas ruas. Dentro do edificio principal sucedem-se bancas de comida e lojas de conveniencia (mais tarde constataremos que existe um 7-Eleven em quase cada esquina), onde os produtos frescos/embalados estao impecavelmente apresentados/arrumados. A casa de banho, paga, tem bons padroes de asseio (os urinois ate estavam numerados...). A zona de espera tem cadeiras, luxo raro na India onde o comum era as pessoas sentarem-se ou deitarem-se no chao e esperar longas horas pelo seu transporte. As pessoas que encontramos vestem-se de forma ocidental. Voltamos a ver calcas de ganga, mini-saias, blusas justas, tenis all-star. Um mundo totalmente diferente que nos manteve num estado continuo de profundo - e patetico! - espanto. O unico senao desta chegada ao Pais das Maravilhas reside no facto de praticamente nada estar escrito em ingles. Nem a Coca-Cola escapa. Os caracteres tailandeses, incompreensiveis para nos, ocupam toda a paisagem visual, aumentando a sensacao de estarmos num lugar distante e estranho.
A estranheza, ja se sabe, facilmente se entranha (tal como a bebida). E depois de uma viagem de autocarro de sete horas (numa camioneta com ar condicionado e bancos almofadados) por uma autoestrada quase sempre em linha recta onde nao houve ultrapassagens de vida ou de morte, chegamos menos cansados do que o habitual ao nosso destino, ja de noite. No terminal de Sukhothai somos recebidos por alguns condutores de tuk-tuk (o riquexo ca do sitio) que pedem valores exagerados para nos levar ah cidade ao mesmo tempo que nos mostram folhetos sobre esta ou aquela guesthouse. Dizemos a um deles que queremos experimentar primeiro uma determinada guesthouse (que ele afirma estar cheia), negociamos o preco do transporte e, para nossa surpresa novamente, ele acaba por aceitar o trato com um sorriso.
A guesthouse esta, de facto, cheia. O condutor ri-se e leva-nos ao sitio onde provavelmente tera a sua comissao. Enquanto a AV guarda as malas, sigo desconfiado o simpatico homem que me recebeu na guesthouse para verificar as condicoes do bungalow proposto. Saio do quarto a dizer Bendita Tailandia. Por um preco inferior a qualquer dos sitios em que ficamos na India temos direito a um bungalow de palhota e madeira, com cama grande e confortavel, WC ladrilhado e agua realmente quente. E tudo sem a "casa" abanar mal damos um passo...
Depois de jantarmos o ultimo bolinho de chocolate comprado no 7-Eleven, adormecemos com um sorriso nos labios e uma sensacao de seguranca para aquela que eh provavelmente a noite de sono mais calma e relaxante desde o inicio da viagem. Sawatdii Tailandia... sawatdii... saw... [PMM]

Mumbai - A cidade que surpreendeu duas vezes

Aquela que foi a nossa maior viagem de comboio na India (25 horas percorridas entre Mysore e Mumbai) foi tambem a mais asseptica. Porque iriamos estar tanto tempo enfiados numa carruagem, decidimos pagar um pouco mais e compramos bilhetes numa classe acima daquela em que viajamos sempre. Entre as diferencas notadas, a mais gritante eh a total ausencia de cheiros e sons. As janelas estao hermeticamente fechadas e o ar condicionado assegura uma temperatura um pouco abaixo daquilo a que entretanto nos habituamos. Recostados nos nossos lugares, olhamos pelos vidros mas sentimo-nos um bocadinho perdidos. Vemos mas nao ouvimos nerm cheiramos. Parece que em vez de olharmos a realidade assistimos a um documentario projectado nas janelas do comboio. La fora ninguem nos ve, pelo que tambem ninguem nos tenta vender fruta ou amendois. Nos corredores do comboio nao passam mendigos nem travestis (comuns nos comboios indianos, eh suposto dar-lhes dinheiro). Sabe-nos bem fazer a longa viagem nestas condicoes, mas nao nos arrependemos de todas as outras, as anteriores, que recordaremos para sempre com as suas particularidades.
Chegamos a Mumbai na hora prevista e conseguimos quarto no YWCA. A diaria aqui quase rebenta com o nosso orcamento, mas regalamo-nos naquele que foi o melhor quarto de toda a India. Com duas refeicoes incluidas e uma casa-de-banho virginal (a brancura das loicas ate faz doer os olhos), nem sequer pestanejamos.
Neste regresso a Mumbai damos conta da nossa absoluta rendicao ah cidade. Que maravilha de metropole! Nao sabemos o que eh que operou esta nossa mudanca de perspectiva: o conforto do alojamento ou o facto de termos passado um mes e meio no resto da India... a verdade eh que demos por nos completamente apaixonados pelo fervilhar das ruas; pelos edificios que de repente nos parecem muito semelhentes aos europeus; pelos semaforos que condicionam o transito; pelos jovens que se vestem como os ocidentais e andam abracados sem tabus.
Desta vez visitamos uma galeria de arte e deliciamo-nos com os trabalhos de quatro artistas indianos contemporaneos. O Museu Principe de Gales enche-nos as medidas (excelente audioguia) e o passeio ao final da tarde pela Marine Drive ate Chowpatty Beach mostra-nos uma baia lindissima com um por-do-sol memoravel. Tambem fomos ah famosa ilha de Elephanta (a uma hora de barco de Mumbai), mas demos o dinheiro por mal gasto: a ilha tem muitos mais macacos e caes sarnentos do que vestigios historicos.
No ultimo dia - em Mumbai e na India - assistimos a um espectaculo de musica classica indiana que, pelas suas particularidades, comecou as 6h15 da manha. Ao ar livre, mesmo ao lado do Gateway of India, vivemos um momento de absoluto deslumbramento e introspeccao, durante aquilo a que os organizadores chamaram uma "spiritual morning".
Na madrugada seguinte (12 de Dezembro) temos voo marcado para a Tailandia. No caminho para o aeroporto avistamos um poster de cinema gigante a anunciar o ultimo filme da nossa estrela de Bollywood favorita - o Amitabh Bachchan. Com um ar muito suspeito de quem sabe o que esta a dizer, o homem avisa-nos: "Go Bagkok"! O conjunto formado pelos oculos escuros e a gabardina preta a ondular ao vento nao nos deixam opcao e la seguimos viagem para Bangkok, que remedio! [AV]

Mysore: Sumptuosidade com cheiro a sandalo

Chegamos a Mysore na manha do dia 7 de Dezembro. Logo depois de arranjarmos um sitio para ficar, comecamos a explorar a cidade. Temos muito pouco tempo a perder, ja que no dia seguinte partimos para Mumbai, etapa final da viagem na India. Ainda antes de almoco ficamos verdadeiramente embasbacados com a sumptuosidade do Palacio do Maraja. A grandeza e a opulencia sao esmagadoras. Os corredores do palacio sao obrigatoriamente percorridos sem sapatos para perservar os marmores, os embutidos e as madeiras. As divisoes sucessivas deslumbram-nos com os seus vitrais, espelhos, cristais e azulejos. Nao falta sequer um lustre enorme proveniente da antiga Checoslovaquia. Todos os espacos transpiram arte, seja na forma de madeiras esculpidas ou tectos trabalhados.
Depois da riqueza desbragada, passamos ah humildade. Para nos punirmos da cobica e da luxuria, visitamos a Catedral de Santa Filomena. Esta eh uma das imagens mais incoerentes da cidade: uma igreja de traca verdadeiramente medieval (copia da Cateral de Colonia), rodeada de palmeiras, coqueiros e riquexos.
Depois de um pacato almoco no jardim do Hotel Ritz (que tambem o ha em Mysore, vejam so) seguimos ate as fabricas governamentais de seda e oleo de sandalo. A primeira ja tinha encerrado o periodo diario de visitas, pelo que espreitamos apenas a segunda. Na memoria ficou-nos o intenso cheiro da madeira de sandalo, ubiquo em toda a cidade.
Como num verdadeiro corta-mato, saimos a correr da fabrica e subimos (de riquexo, claro) Chamundi Hill, uma das colinas mais sagradas do Sul da India. A subida foi ingreme e a mota parecia querer ficar-se pelo caminho, como vimos acontecer a alguns carros. Mas la se aguentou e nos fomos respirar fundo as vistas que, segundo os guias, sao magnificas. Mas nos o que vimos foi uma neblina irritante que nem sequer nos deixou distinguir o Palacio do Maraja. Regressar ao hotel eh que foi complicado. Poucos condutores de riquexo falam ingles e a mimica nao resolve tudo.
Ah noite fomos recuperar folego ao Parklane Hotel. A musica ao vivo e a comida deliciosa - num jardim apinhado de backpackers e indianos com pinta de trabalharem em informatica - deixaram-nos optimistas para a viagem de 25 horas que nos esperava no dia seguinte.[AV]

A seguir: Temos mesmo que ir embora de Mumbai?

Terça-feira, Dezembro 20, 2005

Thanjavur - Um portugues imortalizado no templo

As 16h15 do dia 5 de Dezembro chegamos a Thanjavur. Durante a sua passagem pela India, os ingleses mudaram os nomes das localidades e ruas para toponimos que facilmente conseguissem pronunciar. Thanjavur passou a Tanjore e so recentemente voltou ah denominacao antiga. A rua do hotel onde ficamos hospedados - uma estrutura turistica com apoio governamental, onde ja tinhamos estado em Rameswaram - eh muito movimentada, caotica e baulhenta. Por todo o lado ha grandes armazens de comercio, sobretudo joalharias. Sao edificios imponentes muito ocidentais, com neons chamativos. O comercio "tradicional" convive bem com estas modernices e no chao encontramos diversos sapateiros e ferreiros, especialistas em arranjos de lanternas ou cadeados. Nao somos muito importunados. Sao poucos os turistas ocidentais que por aqui passam.
Na manha seguinte visitamos o Templo Brihadiswara, tambem patrimonio mundial da UNESCO. Este local sagrado integra uma estrutura enorme, que representa bem o poderio aqui alcancado pela dinastia Chola. O material predominante eh algo que nos parece terracota. No edificio principal encontramos um linga enorme. A entrada do complexo eh guardada por Nandi, o touro de Shiva, uma escultura com mais de 25 toneladas. Temos tempo ainda para visitar os Shivaganga Gardens (um parque que faz as delicias dos habitantes, talvez por reunir piscina, escorregas de agua e ate um camelo no mesmo local). Depois de almoco rumamos ao Royal Palace, mas depressa precebemos que os tempos da realeza ja la vao e hoje, o mal preservado edficio alberga uma escola.
Ao final da tarde seguimos para Mysore, em Karnataka. A viagem de comboio durou toda a noite, mas decorreu de forma muito tranquila. Na nossa carruagem seguiam dois senhores muito simpaticos e interessados em Portugal e nos portugueses. Ate ficamos a saber que numa das paredes laterais do templo de Thanjavur, la entre as centenas de esculturas, ha uma que representa um conterraneo nosso. So nao percebemos o que eh qu ele ali estava a fazer (mas haveremos de descobrir!).

Sábado, Dezembro 17, 2005

Rameswaram - Banho sagrado numa ilha paradisiaca

O dia 1 de Dezembro marca o ponto a partir do qual comecamos a imprimir ah viagem uma velocidade de cruzeiro. Nesta data, apanhamos um autocarro ate Allepey e daqui seguimos para Kollam, a bordo de um barquinho preguicoso que nos transporta por entre as veias de aguas calmas e doces do Kerala. Durante as sete horas de viagem assistimos as rotinas diarias de quem vive nas margens e aqui lava as roupas e as loicas das refeicoes, pesca o jantar, da banho aos filhos e ate mantem pequenos cubiculos forrados a palhota e assentes em estacas de madeira que nos pareceram ser latrinas com esgoto directo. A paisagem eh magnifica e os patos nadam em bandos enormes, indiferentes aos receios de gripes ou outras maleitas. Nos aproveitamos para dormir, ler e apenas estar ali. Ah hora de almoco, paramos num sitio a meio do caminho onde nos servem um thali em folha de bananeira. Enquanto empurramos o arroz com o chapati, sem a ajuda de garfos ou facas, conhecemos um casal de franceses que esta agora a terminar uma viagem semelhante ah que nos pretendemos fazer, iniciada ha cerca de 10 meses.
De Kollam seguimos para Madurai, ja no Estado de Tamil Nadu. Chegamos de manha cedinho, ainda os estabelecimentos estao fechados. Dirigimo-nos aos templos (motivo por que fazemos escala nesta cidade) e encontramos uma extraordinaria estrutura com 65 mil metros quadrados, decorada com mais de 30 mil pequenas estatuas coloridas, representando deuses. Os templos atraem cerca de 10 mil pessoas diariamente, mas nos vimos muito poucos ocidentais. Descalcos, percorremos o intrincado de ruas sujas interiores.
Nessa mesma manha, apanhamos um autocarro para Rameswaram. O mar azul da pequenina ilha com vista para o Sri Lanka cativa-nos logo ah chegada. Aqui, os nossos sentidos descansam, finalmente, e deixam-se entorpecer pela beleza muito pouco adulterada pelo homem.
Na madrugada de domingo, 4 de Dezembro, somos acordados por uma violenta tempestade. Lembramo-nos que Tamil Nadu tem estado, nesses dias, sob o efeito de fortes chuvadas inesperadas, deixando campos alagados e culturas destruidas. Mesmo assim, levantamo-nos cedo e vamos para o templo. Na praia junto ao hotel onde estamos alojados, encontramos dezenas de pessoas que ai, na Baia de Bengala, iniciam os seus rituais com um banho purficador. Nos nem sequer molhamos os pes na agua salgada. Estamos secos, mas isso nao dura muito tempo. O chao do templo esta alagado e ficamos com agua enlameada pelos tornezelos. Poucos minutos depois, e quase sem me dar conta do esta a acontecer, dou inicio a um longo ritual composto por 24 baldes de agua sagrada, que me sao deitados pela cabeca abaixo. Depois do primeiro banho (eu julgava que os nao-hindus so poderiam ser aspergidos com salpicos de agua), tentei desistir. Mas o guia nao admite essa hipotese e continua a chamar-me, de poco em poco, num ritmo de atleta. Durante todo o percurso pensei em mil coisas que hoje me dao vontade de rir. A minha maior preocupacao era adoecer... constipada, com uma alergia ou por beber agua contaminada. A meio deixei de pensar nisso. Afinal, se aquilo era sagrado nao me podia fazer mal! Felizmente, levava um impermeavel vestido (apenas por causa das chuvas da noite), mas que se revelou precioso... eh que eu nao levava sari como as outras todas mas uma blusa que ficou transparente depois de molhada, por cima de um soutien preto!
Nessa noite senti que o banho tinha, de facto, operado transformacoes em mim e no PM por arrasto. Dormimos como anjos num quarto repleto de melgas, formigas gigantes e uma familia de osgas, alem de outros insectos que nem sequer conhecemos, mas que ali passaram a noite connosco.
No dia seguinte partimos rumo a Thanjavur. A viagem de autocarro (sete horas) deixou-nos a adrenalina no maximo. Num dos solavancos, ouvimos um estrondo na parte de tras da camioneta e o revisor faz o tipico acenozinho de cabeca indiano (abanam a cabeca de um lado para o outro, como se quisessem dizer "mais ou menos", mas querem significar "sim". Ate o percebermos, eu e o PM andamos desrorientados). O saco enorme de uma das passageiras tombou e ha caranguejos espalhados por todo o lado. Cheira a peixe... estamos na India. [AV]

Proximo post: Thanjavur

Cochim: Aniversario entre as dancas Kathakali

Depois de Goa seguimos viagem para Cochim, no estado do Kerala, onde nos deixamos inebriar pelo forte cheiro a pimenta. Percebemos logo o encanto que esta terra tera exercido sobre portugueses, holandes e ingleses - todos eles aventureiros colonizadores destas paragens. Ha especiarias no ar, porque brotam dos quintais das casas bonitas que ladeiam as rua desafogadas. Chegamos no dia 29 de Novembro e estranhamos, pela segunda vez, que nao queiramos ir logo embora. Eh bom estar aqui, na Napier Homestay, a partilhar o dia-a-dia da familia que nos acolhe com um sorriso sincero e a tomar duches de agua quente, mesmo que la fora esteja um calor de bradar aos ceus. A familia eh mesmo uma familia: pais, filhas e avo. Todos abencoados por um Sagrado Coracao de Jesus pendurado ah entrada, porque sao cristaos, influencia de antepassados britanicos.
O termometro que a nossa amiga L. nos emprestou marca quase sempre 35 graus centigrados, mas mesmo assim encharcamo-nos em cafe com leite e torradas com manteiga no Vasco Cafe (em homenagem ao nosso Vasco da Gama, que ali ao lado tera passado os seus ultimos momentos na consoada de 1524). Eh assim, com o estomago ja reconciliado da fome passada no comboio (numa viagem de 16 horas, mas ainda assim imaculada, com revisores de calcas brancas e vincadas), que vamos descobrir um dos quadros mais perfeitos que a India nos reservou - as redes de pesca chinesas. Ao largo do Mar Arabico e mesmo ao pe dos cargueiros que passam, estao estas grandes estruturas de madeira, que mais parecem aranhas gigantes, sustentando redes de pesca. Conforme as mares estao ou nao de feicao, assim os pescadores as baixam ou levantam para recolher o pescado. Mais tarde, no passeio de sete horas que fazemos entre Allepey e Kollam, pelo meio de canais placidos de aguas verdes, voltamos a encontra-las.
Em terra vende-se o peixe acabado de pescar, sob a forma de "fast food" saudavel: "You buy, we cook!", explicam-nos em cartazes. Cheira a lota e a redes de pesca a serem consertadas a bordo de pequenas embarcacaoes. Sem percebermos a razao, constatamos a inexistencia de pedintes. Talvez porque o mar dah alimento que chegue para todos. Ou apenas porque os policias, fardados de camisa azul e calcas castanhas, patrulham a zona de tras para a frente.

E de repente, quase sem eu dar por isso, no dia seguinte (30/11) ja eu estava mais velha um ano... Vejam so como se pode comemorar um aniversario em Cochim:
00h07 - Por baixo do mosquiteiro cor-de-rosa, o PM acorda e da-me um beijo entaramelado de parabens
9h00 - Pequeno-almoco na Napier Homestay
9h30 - Massagem ayurvedica com uma indiana que nao fala ingles. Nua, fui esfregada, massajada e envolvida em oleos medicinais
10h15 - A indiana enrola-me num pano e leva-me para o duche onde me volta a esfregar, desta vez com sabonete e shampoo ayurvedico (parecia a minha mae a esfregar-me o 'surro' do pescoco quando eu era pequena)
10h30 - Regresso feliz e contente para a guesthouse
10h45 - A senhora Napier espera-me ah porta de casa, com um sorriso gigante, e da-me os parabens 10h50 - O PM canta-me os parabens com bolinho de chocolate, vela e ramo de flores
11h00 - A avo da familia da-me os parabens (e, mais tarde, outros desconhecidos da vizinhanca fazem o mesmo deixando-me profundamente feliz e comovida... ate a florista que vendeu as flores ao PM me ofereceu 'congratulations' meio timida)
12h00 - Visita ao Museu Indo-Portugues. Altura de constatar o excelente trabalho que a Fundacao Calouste Gulbenkian mantem por estes lados. O senhor dos bilhetes conta-nos a historia toda da passagem dos nossos antepassados por Cochim e, no fim, convence-me a comprar uma essencia de lirio, flor cultivada ali mesmo no jardim
13h00 - Sopa de tomate divinal no Keshi Art Cafe
14h30 - (9h00 em Portugal) Telefonema aos meus pais... eu nasci as 9h00 e a minha mae tem o costume de me telefonar todos os anos no minuto em que nos cortaram a relacao umbilical
17h00/20h30 - Longo, muito longo (mas extraordinario) espectaculo de danca Kathakali - um dos quatro tipos de danca classica indiana. O tradicional Kathakali foi e continua a ser executado nos dias festivos como parte dos rituais que tem lugar nos templos hindus. Actualmente, eh possivel assistir a versoes mais curtas destes espectaculos (os originais podem durar oito horas), onde ate nos deixam ver os actores a maquilharem-se de forma dramatica e colorida. As pinturas que utilizam, os gigantescos e impressionantes aderecos que colocam na cabeca e ainda as magnificas saias armadas que envergam, totalizam aquilo a que recorrem externamente para reforcar a representacao. O resto fica por conta da sua capacidade de expressao, traduzida unicamente por movimentos de olhos, trejeitos, gestos (sob a forma de 24 'mudras'), saltos ou posturas corporais. Tudo conjugado com percussao e canto.
20h45 - Jantar no Fort House hotel - excelente comida de Kerala, gastronomia famosa pela deliciosa combinacao de peixe e leite de coco. [AV]

Proxima etapa : 24 baldes de agua fria na cabeca em Rameswaram

Quarta-feira, Dezembro 14, 2005

Agra, WC do quarto


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Viva a ferrugem!

Agra, Taj Mahal


Agra, Taj Mahal
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Agra, Taj Mahal


Agra, Taj Mahal
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Na penumbra do por-do-sol.

Agra, Taj Mahal


Agra, Taj Mahal
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Na penumbra da madrugada.

Agra, Taj Mahal


Agra, Taj Mahal
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Limpeza matinal de uma mesquita adjacente ao Taj.

Udaipur, City Palace


Udaipur, City Palace
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Udaipur, Lake Palace


Udaipur, Lake Palace
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Espectaculo de folclore, muito orientado para o turista americano ver, preferencialmente de copo de whisky na mao.

Udaipur, vista para o Lake Palace

Tambem nao ficamos alojados no Lake Palace... mas pelo menos jantamos la!

Mumbai, Taj Mahal Hotel


Mumbai, Taj Mahal Hotel
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Nao, nao ficamos alojados neste hotel... mas sempre da para ver em primeiro plano os baloes em forma de perna de frango que nos tentavam vender.

Domingo, Dezembro 11, 2005

Goa: Portugal no coracao

Goa recebeu-nos de bracos abertos no dia 17 de Novembro. A viagem ate ah antiga colonia portuguesa do Oriente foi longa e tortuosa, mas valeu a pena. O postal ilustrado coincide com a realidade e percebe-se facilmente por que eh que este eh um dos destinos preferidos das estrelas de cinema de Bollywood e turistas ocidentais endinheirados: ah sol, palmeiras, aguas paradisiacas e areias branquinhas.
Nos viemos em busca de descanso e encontramo-lo na forma de um por-do-sol magnifico na praia de Palolem. Nao nos faltou sequer a cabana na praia, como nas cancoes romanticas... so nao sabemos se nestas cantigas tambem ah formigas castanhas que picam e casas-de-banho equilibradas em estacas de madeira, ameacando cair a cada passo.
Mas em Goa encontramos tambem uma confortavel sensacao de estarmos em casa de uns primos que nao viamos ha muitos anos mas que nos tratam muito bem. Essa impressao de "calorzinho humano" comecou logo durante a viagem de aviao. Eu e o sexagenario muculmano que se sentou ao meu lado levamos o caminho todo na conversa - em portugues - e ate cantamos em unissono o Hino Nacional, entre gargalhadas e palmadinhas dele no meu braco (o PM dormia, por isso, nao assistiu a este momento unico).
Depois, quando chegamos ao aeroporto, somos surpreendidos por uma enorme quantidade de anuncios e neons com nomes portugueses (ate o casino local tem o luso nome de "Caravela"). A descoberta de Albuquerques, Menezes, Moraes e Sas nas tabuletas das casas comerciais continua ate chegarmos ah Afonso Guesthouse, onde somos recebidos em portugues por uma simpatica senhora. Ja em extase abrimos a porta da casa-de-banho e encontramos um lavatorio limpo. O PM desabafa: "Eh asseio ah portuguesa!"
Passear em Panjim permitiu-nos recuperar forcas e voltar a cair de amores pela India. O casario tipico pintado de cores fortes assinala a epoca colonial e as igrejas catolicas espalhadas por todo o territorio tem a marca dos portugueses.
Eu fui assistir a uma missa dominical rezada na lingua de Camoes e o PM foi ah procura do Padre Lagrange, que ah cinco anos atras o tinha recebido com cha e bolinhos na casa paroquial (mas disseram-nos que o senhor agora esta em Margao, num lar de idosos). Fomos passear a Velha Goa e constatamos que o conjunto formado pela Basilica do Bom Jesus (onde se encontram os restos mortais de S. Francisco de Assis) e a Se Catedral eh mais do que suficiente para converter qualquer agnostico renitente.
E ate tinhamos motivos para agradecer ao divino. Eh que com tantos sitios na India pouco indicados para ficar doente, o PM adoeceu precisamente no unico local onde existia uma Farmacia Salcete com um empregado que nos atendeu em portugues, e onde um Dr. Sa (medico muito respeitado em todo o Bairro das Fontainhas, onde estavamos hospedados) nos abriu a porta de sua casa as 7h30 da manha. Ate parecia que estavamos no Centro de Saude de Alges, com a diferenca que o Dr. Sa estava descalco. [AV]


A seguir: E se desconhecidos te derem os parabens em Cochim? Isso eh... uma imensa felicidade!

A caminho da Tailandia

A India ainda nao acabou (em termos do relato da nossa viagem) mas ja estamos de partida para novas paragens. Hoje de madrugada (dia 12 de Dezembro) esta previsto voarmos rumo ah Tailandia. Devemos aterrar em Bangkok pouco depois do meio-dia (hora local, julgo que mais 7 horas do que em Lisboa, informacao ainda por confirmar). Se ficamos uns dias na cidade - onde teremos de voltar mais tarde para apanhar outro aviao - ou se seguimos prontamente para outras paragens ainda eh uma incognita. Tal como eh essa "nova paragem" que tanto pode ser o Camboja ou o norte da Tailandia (montanhas). Nada de panico. Ainda temos umas horas de espera no auroporto para decidir. Afinal de contas, o voo eh so as 5h40 da manha...
Em principio sera o PM a relatar a estada tailandesa e, provavelmente, tambem os paises seguintes do sudoeste asiatico. Mas a AV nao vai estar parada e promete prosseguir e terminar o relato indiano. Ainda bem. Isso significa que as leituras deste blog nao vao descer drasticamente... Eh que o PM nao vai - nem consegue! - descrever os passos da viagem de forma tao completa (e belissima). Nao da para perceber por este post?!? :-) [PMM]

Terça-feira, Dezembro 06, 2005

Notas de viagem: India, duas faces da mesma moeda

Quando vou ao cinema, gosto particularmente de descobrir filmes cujas personagens sejam essencialmente humanas. Ou seja, que sejam essencialmente imperfeitas. Que sejam capazes de praticar o bem, mas tambem de resvalar para o mal. Que sejam capazes de discernir o certo e o errado mas nem sempre consigam agir correctamente. Que tenham a hipotese de se redimir mas nem sempre o consigam. Este andar no fio da navalha parece-me tornar as personagens mais reais. Mais proximas daquilo que quase todos nos somos, com honrosas e odiosas excepcoes. Seres imperfeitos, ah procura de um caminho, de um equilibrio. Claro que ainda me deleito com alguns filmes de Hollywood (das decadas de 40 e 50) onde tudo era esquematico e exacerbado. Sao caracteristicas proprias da epoca - e desses filmes - que nao deixaram de me deslumbrar. Mas a riqueza estraida das fitas onde predominam os tons cinza (ao inves da dicotomia "preto-branco", onde tudo esta demasiado claro) e necessariamente maior.
Serve esta introducao cinematica para ilustrar aquilo que penso desta primeira etapa da nossa viagem. A India eh um destino cinzento. Acabem com a utopia de alcancar os nirvanas espirituais facilmente logo ao aterrar na India. Esquecam as ideias forjadas de que neste canto do mundo tudo tem um sentido superior, divino. Mas tambem nao caiam no erro de pensar que a miseria, a sujidade, marcam presenca em cada milimetro quadrado deste territorio. A India eh uma imensa moeda. E, como todas as moedas que se prezem, apresenta duas faces distintas. Miseria e riqueza. Beleza e fealdade. Asseio e imundicie. Gentileza e agressividade. Progresso e atraso. Espiritualidade e materialismo. E por ai fora, numa extensa e se calhar infindavel listagem de extremos.
Eh isto que a India tem para oferecer ao viajante que esteja disposto a saborear este destino. Eh neste fio da navalha que temos de andar constantemente. Num estado de alerta permanente, com todos os sentidos a funcionar, para captar tanto os sinais de perigo como os momentos de excepcao. A India exige um enorme esforco de adaptacao. Saber esquecer os episodios maus para conseguir prezar e apreciar os acontecimentos bons. Saber ultrapassar as dificuldades do caminho para colher os frutos do esforco no destino. Saber olhar para o lado quando eh preciso sem nos tornarmos autistas ao que se passa em nosso redor. Acima de tudo, perceber que toda a moeda tem duas faces. E que mesmo assim, ambas as faces podem apresentar tons acinzentados. Tal como num bom filme onde as personagens nao sao maniqueistas.
Tenho dificuldade em fazer um juizo da India (na sua totalidade) apregoando aos sete ventos que isto eh um local maravilhoso ou que este eh um sitio horrendo. Por vezes, eh dificil explicarmos porque gostamos tanto de filmes que retraram realidades aterradoras, como as peliculas sobre o Holocausto. A verdade eh que eu gosto desses filmes. Gosto de me emocionar com eles, de perceber a dimensao que o mal pode assumir mas tambem a subtileza com que o bem se pode revestir. Dito isto, nao me resta outra solucao que nao afirmar que gosto da India. Mas nao apenas e so pelas razoes positivas, imaginarias, construidas, veiculadas e assumidas pelo Ocidente que culminam em slogans publicitarios tipo "um destino exotico e magico!". Gosto da India pela experiencia, muito humana, muito realista, muito verdadeira, de viajar num pais com duas faces. Da mesma moeda. [PMM]

Segunda-feira, Dezembro 05, 2005

Khajuraho: UNESCO hardcore

Para chegar ah pequena localidade de Khajuraho, no estado de Madhya Pradesh, nao ha outra hipotese que nao seja apanhar um autocarro. Foi isso que fizemos na manha do dia 14 de Novembro, acompanhados por uma coreana (nao sabemos o nome dela) e do Jordi - catalao de Girona, arquitecto a trabalhar numa ONG no Sul da India. Depois de outra viagem de comboio atribulada (desta vez acordamos com o chao repleto de velhotas que nao percebemos bem de onde vieram nem para onde iam), juntamos-nos os quatro a outros quantos ocidentais e la fomos de riquexo para um ermo onde nos garantiram que o autocarro para Khajuraho iria passar. E passou mesmo. Alias, se ha coisa que funciona neste pais (estou a falar a serio) sao mesmo os autocarros. Todos os que precisamos de apanhar passam a horas e chegam no minuto (!) previsto ao destino.
Para conseguir esta pontualidade britanica, os condutores fazem malabarismos com o autocarro que quase se despedaca a cada mudanca. Pelo meio apitam furiosamente, ultrapassam perigosamente, cantarolam alegremente e nos nunca sabemos como eh que raio chegamos vivos. Em muitos autocarros nao ha portas e as janelas nao fecham. Mas ha uma caixinha de primeiros-socorros do tamanho de um radio de ouvir o relato aos domingos, o que eh um descanso.
Nesta viagem, colocaram as nossas mochilas no tejadilho do autocarro. Olhamos todos uns para os outros a tentar adivinhar o que fazer, mas ninguem ousou nada. Eu ainda alvitrei a pergunta que me andava a cirandar na cabeca: "is it safe"? O sorriso do homem respondeu-me. Mas a verdade eh que eu fiquei sem saber se era ou nao seguro.
Partimos. A viagem demora umas cinco horas. A musica grita dos altifalantes e ao fim de cinco minutos de ultrapassagens mortais deixo de me preocupar com isso. Ah chegada, temos que ser nos a ir buscar as malas ao tejadilho. O PM engole em seco. Tem vertigens. Eu dou um passinho timido em direccao as escadas. Mas ele - o meu super-homem - vence o medo das alturas e segue intrepido atras dos outros rapazes. Ele ainda hoje nao sabe como conseguiu fazer aquilo, embora tenha repetido a proeza no regresso.
Em Khajuraho, o dono de um hotel tenta convencer-nos a ficar la com o argumento de que no seu terraco passam, todos os dias, milhares de passaros... eu fiquei sem saber se aquilo era para rir ou para chorar. O cinefilo do PM lembrou-se do Hitchcock mas eu so queria era fugir das penas e da gripe das aves. Ainda assim ficamos (para sairmos no dia seguinte, expulsos pelos acaros).
Os templos de Khajuraho sao tao imponentes que se anunciam sem os procurarmos. Veem-se de quase todos os angulos da pequena localidade. Exactamente como os vendedores desta terra, que se caracterizam pela enorme persistencia (sem duvida, os mais chatos com que contactamos em toda a India).
No dia seguinte, temos encontro marcado com o erotismo, na forma de milhares de pequenas esculturas libidinosas esculpidas entre 900 e 1100 dC. Os templos de Khajuraho foram construidos durante a dinastia Chandela e sao hoje consideradas patrimonio mundial pela UNESCO. Na verdade, nem todas as pecas representam cenas de sexo, mas as mulheres rolicas estao por toda a parte em poses convidativas, la isso estao. Os guias fazem por explicar em pormenor aquilo que apontam, fazendo corar raparigas novas e outras com idade para ja terem juizo (eu, que ate sou de ruborizar, acho que disfarcei bem). Uma francesa de meia idade nao resistiu e desabafou com o marido: "Mas o que eh que lhes deu para desatarem a fazer isto?!"
Eu e o PM tambem nao sabemos o que nos deu, mas de repente sentimos que o amor andava no ar e as borboletas tambem e que o amor eh uma coisa linda!
No dia segunte ja nao estamos a fazer nada em Khajuraho. Nao conseguimos passar na rua principal sem sermos chamados para comprar, ver e mexer. Alem dos homens, tambem ha dezenas de criancas que, de bicicleta, nos acompanham em qualquer passeio que tentamos fazer. Querem levar-nos nao sabemos para onde, com a desculpa de que so querem treinar o ingles.
Decidimos partir. Na estacao das camionetas estao quase todos os ocidentais que vieram connosco, ah excepcao da coreana. Nos e o Jordi seguimos para Orccha. Ele vai para ficar ate ao dia seguinte. Nos vamos apenas fazer tempo ate serem horas do nosso comboio, que parte nessa noite de Jhansi em direccao a Delhi. Em Orccha, passeamos por ruas estreitas onde mulheres vendem pigmentos de tintas coloridas e diversas especiarias. Visitamos ruinas de um palacio e avistamos templos. O relogio para nas margens de um pequeno riacho. As aguas sao tao limpidas que ate custa a acreditar que estamos a ver a nossa imagem reflectida.
Quando o tempo volta a fazer tic-tac, iniciam-se as negociacoes com o homem do riquexo. A regatear quase de mao na anca, o PM desanca o malandro que queria dar boleia a dois amigos com os portugas a patrocinarem a brincadeira. Na manha seguinte, ja em Delhi, ameaca outro motorista (agora de taxi) de chamar a policia. Eh de homem! [AV]

Proximo capitulo: Goa ainda eh dos portuguses

Sexta-feira, Novembro 25, 2005

Varanasi: Entre o ceu e o inferno

No dia 8 de Novembro chegamos a Varanasi e, como de costume, somos cercados por furiosos condutores de taxi e riquexo que nos agarram nos bracos e quase nos impedem a circulacao. Somos obrigados a ser rudes com quem, afinal, so esta a querer ganhar o seu, mas que chateia que se farta. Aqui no Norte da India estamos sempre ansiosos por chegar ao nosso destino, mas quando chegamos ja so pensamos em sair dali para fora. O grande problema eh mesmo esse: conseguir sair. Eh quase impossivel conseguir bilhetes de comboio para duas pessas de vespera. Desenhar as ligacoes que precisamos de fazer eh uma tarefa herculea e, quando queremos evoluir no subcontinente para Sul, bem que nos podemos preparar para esperar muito! Esperar nao so pelos comboios, mas tambem pela resolucao dos imbroglios em que por vezes nos metemos quando tentamos comprar bilhetes a empregados de hotel que nos garantem que "estao ali para ajudar o cliente" e que "tratam das deslocacoes num piscar de olhos". Vou poupar-vos ah descricao detalhada do que foi a nossa odisseia para conseguir sair de Varanasi com destino a Kajuraho e posterior ligacao a Goa. Digo-vos apenas que a nossa estadia na cidade santa prolongou-se ate ah noite de dia 13. Digo-vos tambem que uma fatia importante deste tempo nao foi passado a meditar ah beira do Ganges, mas a tentar resolver uma dificil equacao: gastamos uma pipa de massa em oito bilhetes (dois de aviao e seis de comboio) que nao nos interessam... pagamos tudo em dinheiro vivo (tal como nos filmes de gangsters carregamos molhos de notas de 100 rupias em sacos, ambos montados numa bicicleta-riquexo) e agora nao sabemos como sair desta alhada.
Mas saimos e o assunto acabou por se resolver.
Como acabamos por ficar mais tempo do que o inicialmente estimado, conseguimos viver a cidade um pouco mais profundamente. Instalados no Temple on Ganges - hotel com uma vista extraordinaria para a alma da cidade que corre no rio -, sentimo-nos em paz com os deuses todos do firmamento. A panoramica abrange uma das escadarias mais calmas do caudal - o Assi Ghat, aquele que nos serve de morada. Deitados na cama do nosso quarto, conseguimos abarcar a agua sagrada e ouvir os ruidos dos que vivem o seu rio.
Depois de varios dias dias em que nos deixamos andar um pouco sem rumo definido, no dia 12 levantamo-nos as cinco da manha para um passeio de barco no rio (o turistico "boat ride" que, desde a nossa chegada, nos tentavam impor a cada 5 metros de qualquer passeio inofensivo). A partida estava prevista para as 5h30, mas as 5h20 ja o remador nos esperava no local combinado. Nos, que iamos a pensar "mas quem eh que esta levantado a esta hora da manha?! Mas para que raio eh que nos marcaram a passeata tao cedo?", rapidamente percebemos a origem de todos os barulhos que nos acordavam, religiosamente, todos os dias as quatro da matina: ja estava tudo no rio a preparar mais um dia desta vida na terra.
Os ghats (escadarias) estavam ao rubro com uma quantidade inimaginavel e indescritivel de crentes que se sobrepunham em camadas para chegarem ao rio e ai ritualizarem as suas preces, lavarem as suas roupas e abandonarem os seus pecados desfeitos em espuma de sabao.
Ainda estah noite escura e o remador leva-nos nao muito longe da margem, perto o suficiente para apreciarmos os diferentes niveis de actividade que caracterizam cada um dos ghats. Com a escuridao as cores ganham uma tonalidade feerica, permitindo-nos sentir um pouco da espiritualidade derramada nos degraus, na lama, nas plataformas e nos barcos. Ha velas que flutuam em cestinhos de flores e ha tambem sacos de plastico nao biodegradaveis (mas esse conceito so agora comeca a ser divulgado nas grandes metropoles indianas) repletos de oferendas. Sao diversas as formas escolhidas por cada um para se relacionar com o divino. Religiao significa isso mesmo: religar, restabelecer a comunicacao com o alem.
Finalmente aportamos no Manikarnika Ghat, considerado o mais sagrado de todos e ultima paragem da peregrinacao feita por muitos hindus, denominada "panchathirthi". Sem que nos tivessem prevenido, somos ali largados e ah nossa espera esta um guia que nenhum de nos contratou. O remador faz-nos sinal para irmos e nao temos outra hipotese, porque comeca a afastar o barco da margem.
Explica-nos que trabalha ali no crematorio, bem como nos dois edificios que dominam o local e onde dezenas de pessoas aguardam pacientemente a sua morte. Quer mostrar-nos como tudo funciona e, em troca, so teremos que contribuir com uma pequena doacao destinada a ajudar as familias pobres que nao tem o dinheiro necessario para a totalidade da lenha precisa para queimar um corpo (e ah muitos que acabam por optar pelo crematorio electrico - mais barato - ou por deitar os restos nao cremados assim mesmo no rio: meio osso, meio carne, meio cinza).
De repente, e sem que tivessemos tempo para pestanejar ou reagir, estamos no centro das cremacoes. Aos nossos pes e quase a queimar-nos as solas dos sapatos, arde o corpo de uma mulher. O filho nao nos manda embora e ninguem parece incomodado com a nossa presenca. Olham-nos com a curiosidade com que olham sempre os ocidentais.
Mesmo sabendo que estou a assistir a um momento de grande alegria para qualquer hindu - eh esta cremacao, com consequente lancamento das cinzas do Ganges, que garante o Nirvana e o fim das reencarnacoes sucessivas - nao consigo apagar em segundos a cultura que me foi inculcada. No meu coracao a morte eh triste. E aquele foi um momento triste para mim. As cinzas daquela mulher, que nos nunca conhecemos, voaram e colaram-se as nossas roupas, ao nosso cabelo e ah nossa pele. O fogo toldou-me os olhos. O calor acordou magoas que eu trazia sem saber. E chorei uma morte que nao me pertencia.
No fim, pagamos as doacoes, os pedidos e as gratificacoes. Mesmo depois de o PM explicar que no ocidente nao eh com dinheiro que se limpa o Karma, o guia nao parece muito preocupado e ainda nos admoesta por estarmos a oferecer tao pouca lenha aos pobrezinhos. Depois lembramo-nos que estamos na India e eh assim que as coisas funcionam. Nao vale a pena revoltarmo-nos contra uma ordem que esta instalada, so porque a vemos na perspectiva ocidentalizada.
Ja refeitos da experiencia, caminhamos a pe pelas escadarias, agora que o sol ja vai bem alto. Espreitamos novamente a multidao do Dasashwamedh Ghat, passamos pelos homens que lavam furiosamente a roupa contra as pedras, e desviamos a cara daqueles que urinam pelos cantos ou provocam o vomito purificante. Admiramos as cores brilhantes dos saris que secam ao sol e so no dia seguinte sabemos, pela leitura do jornal, que tivemos o privilegio de assistir ao "Prabodhini Ekadashi", comemoracao hindu que tradicionalmente chama milhares de crentes ao Ganges. [AV]

Proxima paragem na nossa "peregrinacao": Cultura libidinosa em Kajuraho

(Nota: Agora ando a tentar resumir as nossas experiencias de viagem, mas mesmo asim mantenho todas as anotacoes exaustivas nos meus cadernos pessoais)

Notas de desporto: Gloria a Goa

E pronto. A chegada do duo pm_av ah India parece ter servido de talisma ah seleccao de Goa que, mais de 20 anos depois da ultima vitoria, acabou por vencer o mais importante campeonato inter-estadual do pais. Os rapazes que equipam de camisola amarela e azul venceram a final ja no prolongamento, altura em que marcaram dois golos para sentenciar o encontro, depois do empate a uma bola registado no final dos 90 minutos. Na ultima decada e meia, a seleccao goesa tinha perdido cinco finais e a malapata parecia estar para durar. Mas desta vez, a gloria nao fugiu aos jogadores de nomes de origem portuguesa. E o Herald la pode fazer uma manchete de primeira pagina sobre a gloriosa vitoria de Goa.

Notas de cinema: Bollywood, Bollywood, Bollywood

Num jornal, um actor de Bollywood era citado dizendo qualquer coisa do estilo: "Na India, o cinema eh como lavar os dentes de manha. Nao se consegue escapar disso." Alem do rapaz mostrar que tem cuidado com a higiene, a frase reflecte a omnipresenca do cinema - e das suas estrelas - no quotidiano indiano. Cartazes de cinema colados nas paredes das ruas, suplementos e rubricas de jornal cheios de fotos sugestivas e mexericos da industria, videoclips de musicas de filmes que passam incessantemente na TV, canais televisivos especificos de cinema, anuncios a todo o tipo de produtos que recorrem ah imagem dos actores mais famosos, novos e modernos multicomplexos que se juntam a salas tradicionais, revistas da especialidade bem estabelecidas no mercado, radios que passam hits musicais... de filmes. Homens que andam com fotografias dos seus actores preferidos na carteira. Rapazes e raparigas que imitam os seus idolos. E, tambem, ligacoes escuras e misteriosas ao mundo da Mafia (durante muitos anos foram os mafiosos que financiavam os filmes e aterrorizavam o mundo das estrelas/produtores/realizadores, com extorsoes de dinheiro e ate assassinios).

Ja se sabia que a India eh o maior produtor cinematografico do mundo, superando inclusivamente Hollywood, mas eh ao respirarmos esta dose macica de cinema que percebemos a verdadeira dimensao do fenomeno. Em certa medida, parece que regressamos ah epoca de ouro de Hollywood, onde o culto das estrelas foi levado ao estremo do glamour, da pose, da imagem.
Na India, o star system actual resume-se, acima de tudo, ao sexo. Praticamente todas as actrizes apresentam-se nos filmes, nas fotos, nos eventos publicos, nos cartazes, com vestes reduzidas (minisaias, tops colados ao corpo, ate ja vimos um caso em que uma moca aparecia em lingerie no cartaz promocional de um filme...). Quase todas tem corpos generosos, esculpidos minuciosamente (embora a AV ache que o padrao de beleza eh aqui algo diferente do que o do ocidente, prezando-se mulheres um pouco mais "cheias"). Muitas delas veem de concursos de beleza. Grande parte nao se importa de ser vista como um simbolo sexual. E o mesmo se passa com os actores mais novos, que nao perdem oportunidade de mostrar os musculos ou a pose de macho. O que espanta nesta febre pelo erotismo e sexo eh a relativa contradicao aos costumes e tradicoes sociais (as mulheres vestem saris, o que lhes deixa muito pouco ou nenhum corpo ah mostra) e o choque com outras regras cinematograficas instituidas (nao ha cenas de nus e ate os beijos na boca sao estritamente proibidos). Temos assim que eh possivel assistir a um filme repleto de mulheres e homens seminus, onde as coreografias das dancas (outro elemento imprescindivel num filme de Bollywood) sao do mais sexualmente explicito que se possa imaginar mas... beijos eh que nao.

Ha quem escreva que este periodo do cinema indiano eh um dos mais pobres (de ideias, de inovacoes, de filmes artisticos). Mas o publico parece nao se importar. Alias, a grande questao do momento resume-se ao seguinte: confirmar-se-a o rumor de que Aishwaria Rai vai aparecer pela primeira vez de biquini num dos seus proximos filmes? Er... ahem... pois... isso ate eu gostava de ver... [PMM]

Tres "curtas" a finalizar o post
1 - a AV colocou a alcunha de Al Pacino a um dos actores da velha guarda mais carismaticos ca do burgo. Chamam-lhe o Big B e tem uma barba completamente branca que contrasta com o cabelo escuro...
2 - compramos uma revista de cinema, a Filmfare, e a leitura tem-se revelado interessante. O grosso das paginas eh ocupado por pecas que interagem com as estrelas, desde as grandes entrevistas (a do numero que temos eh dedicada ah belissima Aishwarya Rai, que anda agora a fazer a sua entrada em Hollywood), a perguntas/inqueritos mais simples. As "meninas" ja se sabe, apresentam-se em poses e vestes sugestivas...
3 - em Panjin fomos ao cinema. Desconheciamos a existencia de um complexo novo e por isso fomos ao velhinho Ashok Cinema. O balcao onde ficamos estava praticamente vazio. Em baixo, na plateia, os risos prenunciavam a presenca de mais alguns espectadores, mas que nao chegavam para a sala estar composta. Era dia de estreia da comedia Garam Masala, com dois actores muito conceituados (um deles, o John Abraham eh uma especie de sex symbol) e o resto do cast cheio de meninas que competiam para mostrar a saia mais curta e o decote mais cavado. Aguentamos o filme inteiro - cerca de 2h30. A lingua era hindi. Nao havia legendas. A meio, percebemos que a nossa plateia tambem estava apinhada. De acaros. E tambem de umas pequenas baratinhas ou la que era. O filme? Serviu para confirmar a tendencia: humor algo ingenuo (muito slapstick a fazer lembrar os filmes do Jerry Lewis, situacoes previsiveis mas que ainda assim provocam risos no espectador) e corpos o mais ah mostra possivel. O pior foi que so teve tres ou quatro numeros musicais. Num deles, um dos actores "danca", alternamente, com as tres namoradas que procura manter simultaneamente (o cerne do filme sao precisamente as situacoes "comicas" decorrentes destes malabarismos). A imagem transmitida eh de que o rapaz eh mesmo um grande... dancarino, pois claro.