quinta-feira, fevereiro 23, 2006

Hanoi: a cidade vermelha

As ultimas horas passadas em Hanoi, capital do Vietname, alteram a cor da cidade. O branco continua a marcar o ceu, mas eh o vermelho quem mais ordena nas ruas. Primeiro mascarado no bronze da estatua de Lenine que ainda nao caiu, como aconteceu noutras paragens do mundo ex-comunista. Depois no mausoleu de Ho Chi Minh, complexo de edificios onde pontificam bandeiras vermelhas, ora comunista, ora vietnamita. Percebemos que a visita ao Tio Ho, fundador da nacao, sera um momento solene. E caricato. Na fila para o detector de metais a confusao instala-se sobre o que se pode ou nao se pode levar para o mausoleu. Pessoas voltam atras para deixar sacos, depois "arrependem-se" e tentam reave-los; uns conseguem, outros nao, sem que se entenda qual a norma aplicavel. Nos acabamos por deixar os nossos pertences no "bengaleiro" e eh de maos nos bolsos que rumamos ah entrada da tumba. Um guarda apressa-se a "ensinar" que maos nos bolsos eh proibido. Fotografias nem se fala, mas as camaras todas, supostamente, ja ficaram retidas. Assumimos a posicao mais reverencial que nos lembramos (bracos colados ao tronco, costas direitas, olhar taciturno) para circundar a redoma que contem o corpo de Ho Chi Minh. O "quadro" eh estranho: o Tio Ho parece um boneco de cera -- iluminado artificialmente de uma forma que oscila entre o macabro, o ridiculo e o iconico -- guardado por soldados-estatua. A romaria eh rapida pois nao podemos parar o que concede tempo para espreitar o Museu de Ho Chi Minh (nao queria gastar o nome do homem mas ele esta por todo o lado), onde interpretacoes artisticas dos pensamentos/ideologia comunista partilham o espaco com objectos pessoais do lider revolucionario. A amalgama eh esquisita mas garante ao Museu uma qualidade incontestavel: nunca vimos nada igual.
O mesmo se pode aplicar ao Museu de Etnologia visitado durante a tarde (depois de andarmos horas/quilometros perdidos pela cidade, sem mapa, a tentar ir parar ao dito cujo, situacao resolvida pela AV com recurso a um autocarro local...) e que acaba por justificar a nossa opcao de nao ir a Sapa, aldeia nas montanhas povoada por tribos de minorias etnicas. O espolio do museu integra videos, objectos originais, reproducoes, textos explicativos, sobre os mais variados dominios -- instrumentos musicais, utensilios agricolas, vestuario, habitacoes, rituais sociais e religiosos -- da vida das minorias etnicas existentes no Vietname. Leva horas a percorrer esta imensidao de informacao que produz uma ideia ampla e rigorosa da riqueza etnografica deste pais e que dificilmente seria entendida nos mercados para turista ver (e comprar) em Sapa.
A noite chega e Hanoi tinge-se ainda mais de vermelho. Sao os stops das motos, os anuncios de neon, as lanternas chinesas. Despedimo-nos da cidade -- e da regiao Norte do Vietname -- com compras no mesmo tom (uma Tshirt, um bone) e a compra de um bilhete de autocarro no Cafe Sinh verdadeiro.
O comeco do trajecto ate Hue esta marcado para as 19 horas e so na manha seguinte chegaremos ao destino. O livro-guia avisa que esta forma de viajar -- nos autocarros para turistas -- impede o contacto com o Vietname real mas preferimos jogar pelo seguro nesta etapa inicial, ainda por cima tao longa. Chegamos cedo ah "sala de espera" que consiste nas mesas de um cafe (que nao eh Sinh...) decadente. Porque quem vai ao mar alivia-se em terra, rumamos ao WC do cafe. Comeca mal a viagem, pois eh a pior experiencia higienica desde que iniciamos esta aventura. Nem na India encontramos algo tao sujo.

A hora da partida aproxima-se e as mesas enchem-se de passageiros. Todos vietnamitas. Ja no autocarro, constatamos que alem de nos, apenas viajam mais dois pares de turistas ocidentais. Afinal, este eh mesmo um autocarro "local". Assim que o veiculo arranca, dois ou tres vietnamitas comecam a colocar colchoes, mantas e almofadas no corredor. Sao os motoristas que farao o resto do percurso e que agora tem de dormir. O andamento faz-se em grande velocidade, com acompanhamento permanente de buzinadelas. Pela janela observamos os campos cultivados, iluminados pelo luar. So perto da meia-noite eh que o autocarro sossega da sua marcha desenfreada. Descida em passo acelerado dos passageiros que se dividem entre a mijinha no terreno baldio e o sentar-se nas mesas do restaurante de beira de estrada. Finalmente podemos comer.
Mas nao ha menu. Em cima de uma bancada, estao expostos os petiscos disponiveis. Tripas, miolos, chouricos e carnes suspeitas, entre outras "iguarias" que nao conseguimos decifrar. Na parede oposta, outro balcao, com frascos de liquido transparente onde nadam lagartos e serpentes (mortos). Compramos pao, sem nada, para espanto da senhora que nos atende. Nem vai um caldinho de iguana, parece dizer? Nao obrigado. E comemos o pao seco como se fosse a melhor sande do mundo. [PMM]

3 Comments:

At 11:00 da manhã, Blogger post_it said...

Hello!
O maravilhoso mundo da iguaria regional! Eu achei que conseguia provar os snacks em Pequim, mas quando vi aquelas lagartas cegas e gordas espetadas num pauzinho lembrei-me furiosamente que gostos não se discutem e nunca vou dizer a nenhum chinês para experimentar caracóis ou mesmo tremoços!
beijinhos

 
At 4:41 da tarde, Anonymous Anónimo said...

Para a semana, são 8 mil cts. com 2 caixas (500 + 500), para 1º IP. Entregar até ás 24 horas e 07 minutos, de dia 1/3. Sem fotografo.

 
At 10:51 da manhã, Blogger av_pm said...

Anonymous
Isso quer dizer que estou contratado? E olhem que eu tenho camara e posso fazer tambem de fotografo! [PMM]

 

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