terça-feira, fevereiro 07, 2006

Phonsavan: marcas de guerra

No Laos somos obrigados a abrandar o ritmo. Um pequeno-almoco pode demorar 40 minutos a ser servido e a velocidade de um autocarro publico nao ultrapassa os 20 Km/h. Apesar de alguns guias desaconselharem este meio de transporte para as nove horas de viagem que separam Luang Prabang de Phonsavan, decidimos dar o beneficio da duvida e la fomos nos. Chegamos cedo ah estacao e minutos depois alguem encaminha-nos para uma especie de autocarro indiano mas com janelas e bancos que ja foram estofados. O veiculo poe-se em movimento, chocalha por todos os lados abanando os locais, obrigados a partilhar o seu transporte com alguns ocidentais, mais os sacos de uns e as mochilas de outros. O tejadilho vai apinhado de motas, sacas e outros volumes. A estrada comeca a serpentear por montanhas e vales, num alcatrao inesperado mas mesmo assim estreito. As curvas sinuosas e apertadas mostram-nos um abismo de vegetacao verde e provocam o vomito a muitos passageiros (o PM engoliu um Viabom para impedir as queixas do estomago). Parecemos pudins a abanar la dentro e quase a cair para cima uns dos outros. Tal nao eh dificil porque muito depois de a lotacao estar esgotada continuaram a deixar entrar passageiros, rapidamente acomodados em banquinhos de plastico espalhados ao longo de todo o corredor do autocarro. Durante o caminho paramos diversas vezes - ou porque o motorista detecta um problema mecanico ou porque alguem precisa de ir atras dos arbustos. Nestas ocasioes aproveitamos para demorar os sentidos na paisagem, nas nuvens que ornamentam cumes como nos desenhos infantis, ou nas casas que o nosso imaginario reserva para as aldeias tradicionais, construidas em cima de estacas de madeira e com telhados de colmo. As pessoas vivem ah beira da estrada indiferentes a quem passa. As maes catam os filhos, raparigas tomam banho em soutien, grupos de miudos jogam ah bola.
Chegamos a Phonsavan no dia 27 de Dezembro. Poucos minutos sao suficientes para identificar as diferencas em relacao a Luang Prabang. Phonsavan eh apenas uma cidadezinha construida em torno de uma estrada. Portanto, sem o selo da UNESCO. Restaurantes e guesthouses de um lado e doutro. Tudo a viver ah custa do Plain of Jars - o motivo por que nos aqui viemos. Dezenas de jarros enormes de pedra estao dispostos nas montanhas da regiao. Ninguem sabe como foram ali parar nem com que objectivo foram construidos. Sabe-se apenas que existem ha mais de tres mil anos. Embora a imensidao dos gigantes recipientes nos tenha surpreendido, aquilo que mais nos impressionou foi descobrir as dezenas de crateras gigantes deixadas pelas bombas norte-americanas. O Laos guarda o triste recorde de ter sido um dos paises mais bombardeados de toda a historia. Entre 1964 e 1973 os EUA levaram a cabo cerca de 580 mil missoes aereas sobre o territorio, largando 2 milhoes de toneladas de bombas. Mas esta foi uma "guerra secreta", explica-nos o guia, pelo que ainda hoje os EUA recusam assumir quaisquer responsabilidades neste dominio. Nao ha registos da ocorrencia, eh a resposta oficial. Apesar disso, as crateras estao la. Assim como o orfanato que todos os dias acolhe criancas cujos pais morrem vitimas dos explosivos deixados no territorio. Estima-se que serao necessarios mais de 100 anos ate que o pais seja considerado totalmente seguro, mesmo com as Nacoes Unidas e outras organizacoes a desenvolverem um trabalho continuo de limpeza.
Eh com estas marcas de guerra que convivem diariamente os habitantes de Phonsavan. Mesmo assim, tentam esquecer o que la vai e ate fazem humor negro com os lagos que os EUA lhes ofereceram de presente (ou seja, as crateras).
Por causa dos transportes somos obrigados a ficar duas noites nesta terra triste e ainda temos oportunidade de descobrir dois clubes nocturnos na estrada principal. Num deles -- Soccer, assim se chamava --, iluminado a neons convidativos, vemos um casal de ocidentais entrar e sair logo de seguida. Ainda hoje nos questionamos sobre o que se estaria a passar la dentro, mas acreditamos que, no Laos ou noutro pais qualquer, a coisa nao deve ser muito diferente. [AV]

4 Comments:

At 1:05 da tarde, Blogger post_it said...

Ola amigos! Ja tinha saudades vossas!
Acham que a vossa viagem alguma vez os vai parar de surpreender? Estava pensar nisto no outro dia e é mesmo verdade, a realidade é bem mais impressionante e surpreendente que qualquer filme de suspense!
Por falar em filme, amigo PM, o Sporting ganhou ao Benfica 3-1! O Benfica tornou a perder esta semana, o Sporting tornou a ganhar, o penteado do treinador do Sporting continua rídiculo e ontem o Braga empatou o Porto! eheheheh
Vou seguindo sempre a Lonely Planet para ver por onde andam... mas se conseguirem enviem algumas fotos vossas.
beijinhos grandes e muitassssssssssssss

 
At 1:57 da tarde, Blogger av_pm said...

Amiga,
Nao ha dia nenhum que a supresa nao seja superior a qualquer expectativa que tenhamos criado. Chegamos a Singapura no dia 4 e ainda hoje continuamos deslumbrados com esta cidade-estado!
Vamos tentar colocar mais fotos online, mas nao prometemos nada... de qualquer forma, pensa so no jantar enormeeeeee que vamos fazer quando chegarmos so para te podermos mostrar as fotos todas :-)
Beijinhos grandes da AV

 
At 1:00 da tarde, Blogger post_it said...

Olá!
Acho que temos de fazer vários jantares, várias maratonas para ver as fotos! BOA!!! beijinhos

 
At 4:12 da tarde, Blogger Amora-Lee said...

Oi! Achei teu Blog por acaso, fazendo uma pesquisa rápida aqui sobre o Hermann Hesse.
Só queria dizer que o blog é muito massa, eu estou começando um agora, e queria deixar ele mais ou menos como o teu, com essas piraçõesinhas...
Ah, sou do Brasil, de Florianópolis!
Saudações

 

Enviar um comentário

<< Home