terça-feira, fevereiro 07, 2006

Vang Vieng: 'countdown' radical

Depois de experimentarmos os autocarros do Laos nao queremos outra coisa. A viagem para Vang Vieng faz-se num veiculo estranhamente em boas condicoes, mas que num apice enche ate nao poder mais. Os banquinhos de plastico ja estao a postos e permitem-me conviver de perto com as unhas grandes (muito comuns tambem no sudeste asiatico) dos dois senhores que ombreiam comigo durante as sete horas de viagem. Apesar do desconforto geral (as curvas no abismo sucedem-se outra vez), os passageiros contam anedotas uns aos outros e um deles comeca a tocar uma especie de gaita, deixando toda a gente bem-disposta, a cantarolar e a bater o pe.
O frio da montanha entra pelas janelas que eles insistem em manter escancaradas e nos fazemos a viagem embrulhados nos nossos casacos e lencos. Numa parte do caminho o nevoeiro atravessa-se ah nossa frente e deixamos de ver curvas, montanhas, ou o que quer que seja.

O mundo eh pequeno -- ja toda a gente sabe disso, bla-bla-bla -- mas nesta etapa da viagem parece-nos ainda mais infimo. De tempos a tempos cruzamo-nos com pessoas que atravessaram a fronteira connosco ou ate que conhecemos no curso de culinaria que fizemos em Chiang Mai. Os ingleses Dick e Jane sao um caso desses. Estiveram no slowboat e tambem no autocarro para Phonsavan, mas so hoje, numa das paragens a caminho de Vang Vieng, temos oportunidade de falar com eles. Ha uma empatia imediata entre nos. Apesar da diferenca de idades, cada um de nos parece sentir necessidade de ficar ali a conversar mais um bocadinho. Em menos de cinco minutos percebemos que pensamos a vida da mesma maneira e em menos de tres trocam-se confidencias. Eu tenho a alma aconchegada por aqueles pais emprestados que encontro. O PM tem um sorriso genuino estampado no rosto.

O autocarro para em Vang Vieng para nos deixar sair. Parece que chegamos a uma cidade fantasma. Ha po no ar e uma pista de aterragem, deixada pelos norte-americanos. A cidade eh composta por uma rua principal e duas ou tres perpendiculares. Tudo parece estar por acabar. As estradas estao por fazer, ha buracos por todo o lado e a construcao dos edificios foi interrompida a meio. A unica coisa que parece funcionar bem eh o turismo, atraido por uma paisagem deslumbrante. Por detras das casas feias e da poeira que se levanta de cada vez que uma mota passa ha um cenario magnifico. O rio eh calminho e claro; nas margens ha toldos de colmo que dao sombra a estrados de madeira onde podemos passar horas infinitas a ler, a ouvir o marulhar das aguas, a seguir os movimentos de uma libelinha ou a fazermos a meditacao que nunca conseguimos fazer em Alges por causa do barulho do cao que vive no andar de baixo.
Pensamos alugar bicicletas para explorar cavernas, equacionamos fazer caminhadas ou andar de caiaque, mas nada nos consegue arrancar desta paz preguicosa. O 'tubing' foi mesmo a coisa mais radical que conseguimos fazer. Na companhia do Dick descemos o rio Nam Xong, enfiados numa camara-de-ar de pneu de camiao. Num curso de agua quase sem corrente, somos obrigados a dar aos bracos e aos pes para avancarmos e nao adormecermos. A pasmaceira so eh interrompida pelos rapazes que nos querem vender Beerlao ao longo do percurso
(e opium, para quem precise de relaxar ainda mais).
Como nao podia deixar de ser, fizemos a contagem para 2006 com essa bebida ubiqua na mao (Beerlao, mas preta) e com os nossos novos amigos ao lado. Vang Vieng eh famosa pela vida nocturna, mas nesta noite vimos apenas um timido fogo-de-artificio e ouvimos um karaoke distorcido. Estranhamos a inexistencia de festarola mas aproveitamos para conhecer melhor este casal que decidiu gastar o que lhe resta (dinheiro e anos de vida util) a viajar por ai. So uns dias mais tarde, quando chegamos a Hanoi, alguem nos diz que a passagem de ano em Vang Vieng foi de arromba mas... a uns bons metros de distancia do local onde estavamos entretidos na conversa com uma mulher que passou anos a chefiar a cantina de uma escola e um oleiro que se tornou enfermeiro numa instituicao psiquiatrica. [AV]

3 Comments:

At 11:41 da manhã, Anonymous Anónimo said...

Andréia,

sou eu, Valéria.
Descobri-te através da Alexandra.Estou boquiaberta e um tanto ou quanto "inveja".
Vou estar atenta ao teu blog.

boa sorte.

 
At 12:59 da tarde, Blogger post_it said...

Olá amigos! E pronto tenho os olhos rasos de água! Que bonito! Que bonita experiência! Que boas pessoas se têm cruzado nas vossas vidas! Beijinhos grandes

 
At 5:33 da manhã, Blogger av_pm said...

Ola Valeria!
Bem-vinda ao nosso blog :) A "inveja", assim entre aspas, eh salutar e neste caso se te incentivar a viajar tambem, ainda melhor!
Beijinhos

 

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