segunda-feira, novembro 21, 2005

Varanasi: A reconciliacao com Deus

Depois de abandonarmos o Sheela Hotel, no dia 7 de Novembro, pensei que o pior ja tinha passado e que Agra teria sido a pior etapa desta India tao dura e dificil. Depressa percebi que estava enganada. A viagem nocturna de comboio para Varanasi foi um pesadelo daqueles que nunca mais esquecerei, nem mesmo quando for velhinha e ja nao tiver dentes para contar a historia aos meus netos. Tudo comecou com o percurso feito de auto-riquexo ate ah estacao de comboios. Demoramos seguramente 40 minutos (o dobro do estimado pelo dono do hotel) a chegar ah Idgah Railway Station. Um caminho tortuoso por partes de Agra que ainda nao tinhamos visto, mas que so vieram completar o quadro negro. Em contraste com os hoteis caros (que tambem os ha por todo o lado, sob a forma de resorts de luxo), ficamos a cohecer as zonas de favela realmente degradadas. A mota larga um fumo muito espesso, negro, com um cheiro a gasolina que nos rasga as vias respiratorias deixando um rasto de dorzinha quando engolimos em seco. Enrolamos o capuz dos casacos ah volta da boca e do nariz e trocamos olhares no banco de tras, cravando as unhas nos ferros onde nos agarramos para nao cairmos com os balancos. Entratanto, as casas desaparecem das bermas e as luzes apagam-se. Estranho que uma estacao de comboios fique assim tao afastada da cidade e (vejam so se isto nao parece a cena de um filme) discretamente retiro o canivete suico do bolsinho da mochila. Tao discretamente que o PM nem da conta, ocupado que vai a tantar manter o equilibrio na mota. Nao me perguntem o que e que eu faria com a navalhinha. Hoje percebo o ridiculo da situacao, mas naquele momento eu estava mesmo decidida a fazer frente ao homem caso ele nos quisesse assaltar num descampado qualquer. Chegamos e o condutor tenta extorquir-nos 10 rupias alem do preco combinado inicialmente. Eu faco sinal ao PM para lhe dar o dinheiro e acabar com aquilo depressa. Mas nesta altura nos nem sonhavamos a noite que nos esperava. Olhamos ah nossa volta e deparamo-nos com uma estacao de meter medo, parecendo uma Ahmedabad (ja aqui descrita noutro post) mas mais pequena. As pessoas andrajosas la continuam amontoadas nos bancos e no chao. Distinguimos ascetas misturados com intocaveis. Animais e criancas atirados pelos cantos, nao sabemos se ah espera de comboio ou de um milagre que os leve dali para fora. Felizmente encontramos dois outros turistas que tambem pretendem seguir para Varanasi. Nenhum de nos percebe porque eh que com outras duas estacoes em Agra, logo tinham que nos mandar para aquela.
Depois de comprarmos o jornal (Sahara Times, por causa dos cadernos que publica ao domingo, mesmo sendo segunda-feira achamos que seria uma boa compra), dirigimo-nos ah nossa plataforma. Dois minutos depois de aliviarmos as costas do peso das mochilas, vemo-nos rodeados por um grupo de quatro ou cinco rapazes que nos olham fixamente. Nao percebemos bem a intencao, por isso, o PM vai respondendo as perguntas do costume (de onde somos, que lingua falamos, de onde vimos, para onde vamos... e por ai fora) com uma simpatia digna de registo. O unico que fala connosco (os outros nao percebem ingles, por isso, limitam-se a seguir todos os nossos movimentos com um olhar atento) revela uma cultura geral acima da media. Diz-nos que estuda ali perto, para vir a ser "professor de criancas". Comeco a sentir-me sufocada por aquele cerco cada vez mais apertado e o PM percebe. Por isso, aproveita para perguntar-lhe a razao de ser daquela curiosidade exacerbada em relacao a todos os estrangeiros. O rapaz explica-nos que os indianos sao mesmo assim, gostam de saber tudo sobre os outros povos. E ele eh exemplo disso, ja que disserta com relativa facilidade sobre temas europeus e consegue manter uma conversa sobre futebol, mesmo qando o seu desporto de eleicao (e o de todos os seus compatriotas) eh o criquete. Entretanto, desaparece-nos da frente numa corrida, porque o comboio que ele esperava esta de partida. Nao ha tempo para grandes despedidas, apenas para um imenso adeus, acenado ja da janela do comboio, acompanhado por um sorriso grande, de quem vai feliz da vida. Sentimo-nos bem naquele bocadinho, ao ve-lo orgulhoso dos amigos que acabou de fazer, e continuamos a ver a mao dele em adeus cada vez mais pequeninos.
A felicidade que sentimos estava quase, quase a derreter-se. Sao 22h e qualquer coisa. Chega o nosso comboio com destino a Varanasi. Mal encontramos a nossa carruagem, percebemos o calvario que estamos prestes a iniciar. Os nossos lugares estao ocupados e o PM resolve a situacao. Ate aqui tudo bem, nao fosse o ar carregado que se respirava e o vermelho ardente do cabelo e barba de um passageiro (eh moda por estes lados). A caruagem tem oito lugares e num dos lados segue um casal com duas criancas. Parecem ser de casta superior. Nao trocam palavras com ninguem e pouco comunicam entre si. As criancas tambem nao retribuem o sorriso que lhes dirijo (e que costuma funcionar com as criancas de todo o mundo) e eu pressinto que a coisa nao vai ser facil.
Este comboio partiu de Jodhpur, pelo que ja traz um cheiro e uma vivencia de viagem a meio. Ha pessoas descalcas por todo o lado e o chao ja mostra sinais de lixo que ninguem tenta sequer esconder debaixo do banco.
Nas estacoes seguintes entram mais pessoas (e uns quantos turistas, mas infelizmente nenhum fica ao pe de nos). Num rompante, seis mulheres e um homem entram na nossa carruagem. Cada um traz muitos sacos e trouxas e nos ficamos impossibilitados de nos mexermos e ate, durante uns longos segundos, de quase respirarmos. Acabam por se sentar todos ali mesmo e o PM resmunga, em portugues, que nao podemos fazer a viagem naquelas condicoes. Ha mulheres novas e velhas. Umas parecem-nos calmas e asseadas, mas outras tem um ar escorregadio. A dada altura, o homem que as acompanha tenta convencer-me a trocar de lugar com uma delas, que tem assento noutra carruagem mas nao quer ficar longe das outras. Eu agarro com forca o braco do PM, digo ao fulano que nao percebo nada daquilo que ele esta para ali a dizer e garanto (tambem em portugues, va-se la saber por que razao) que nao saio dali para lado nenhum.
A esta altura ja o barba ruiva tinha ido embora, mas percebemos que um outro senhor tem um bilhete com o mesmo lugar que um de nos. Temos que esperar pelo revisor paa resolver o imbroglio.
O vai-e-vem de sacos e mulheres de sari eh interminavel. Tiram panos e mantas e outros sacos de dentro de sacos, numa sucessao de matrioskas versao trouxa). Eu e o PM temos a certeza da eternidade que nos vao parecer as 12 horas de viagem que temos pela frente.
Passadas umas estacoes, estao 12 pessoas sentadas numa carruagem de oito. Eu e o PM desistimos da utopia de ler o jornal. Eh entao que o unico homem do grupo, sentado ah minha esquerda, comeca a tossir descontroladamente. Aquilo continua, continua e eu ja nao consigo desafiar mais a minha flexibilidade corporal para lhe virar as costas. Num tom quase didactico, o PM explica-me que estamos a caminho de Varanasi... e que o mais provavel eh que estejam ali muitos peregrinos em busca de cura. "Eles estao todos doentes", sussurou-me ao ouvido direito. Estava tudo explicado, so isso justificava aquela mistura de classes com habitos tao dispares.
Mas a ideia de que aquela gente estava carregadinha de doencas comeca a deixar-me muito desconfortavel. Sinto calores por todo o corpo. Enumero mentalmente todas as vacinas que apanhamos antes da viagem e recordo as indicacoes dos medicamentos que trazemos na bagagem. Mas mesmo assim nao fico descansada. Penso em despir o casaco para nao me sentir tao afogueada, mas logo reparo na quantidade de mosquitos que pairam na carruagem. Em vez de me despir, renovo a aplicacao de Previpic (repelente de insectos), o que deixa as outras mulheres meio intrigadas e com um sorrizinho meio trocista no canto da boca.
O PM percebe o meu incomodo e acaba por me convencer a ocupar o unico beliche que, naquela altura, temos a certeza que eh nosso (o do meio). Para isso, temos que desalojar o pessoal todo daquele lado da carruagem para montar as camas. Deito-me e sinto os olhares de toda a gente cravados em mim. Volto-lhes as costas e sinto-me adoecer. Estou mal disposta e quando me mexo parece que vou vomitar. Continuo com calor e comeca a doer-me a garganta.
Mais tarde chega o senhor dos bilhetes e resolve-se o problema dos lugares. Eu subo para o beliche de cima (para ficar mais resguardada) e o PM fica no meio. Para isso, tenho que enfrentar uma das minhas fobias desde que cheguei ah India: dormir num beliche de cima... mas hoje ja estou por tudo!
Ao pe de mim so tenho as ventoinhas cheias de dezenas de anos de po. E encostado ah minha cara, do outro lado da rede metalica que separa a carruagem, tenho um pe descalco e sujo pertencente ao senhor do lado.
Snto-me cada vez mais doente. A noite avanca e as luzes apagam-se. O meu vizinho do pe encardido ja ressona e as vezes lembra-me o meu vizinho de Alges que sofre de flatulencia. Sinto-me a perder as forcas para resistir ah India. Pela primeira vez, penso na hipotese de desistir. Das janelas escancaradas do comboio entram baforadas estonteates de fumo e po. Pergunto-me se conseguirei chegar a Varanasi. Entao, lembro-me que o nosso destino eh a cidade santa e (desculpem a incursao pelo dominio da espiritualidade mas... eu estava desesperada) penso no Deus da minha religiao. Recordo-me da oracao que a minha avo Lurdes me deu antes da viagem, vou busca-la ah carteira, e rezo-a com conviccao. Eu so queria que aquele castigo acabasse o mais depressa posivel. Bom, so metade da minha prece foi ouvida: em vez das 12 horas previstas, a viagem demorou 16 horas! Mas em contrapartida, consegui dormir na maior parte do percurso. Fiz um casulo branco (tao angelical, penso eu agora) com o meu lencol e adormeci profundamente... Five points to Jesus a caminho de Varanasi, eh o que eu vos posso dizer! Se estivessemos num campeoato inter-religioso, Jesus saia deste jogo dificil em clara vantagem, mesmo com a oposicao cerrada da dupla Vishnu e Shiva ;-)
Proximo capitulo: como AV e PM cheiraram - de perto, muito perto - a morte em Varanasi.

[AV]

5 Comments:

At 3:43 da tarde, Blogger post_it said...

Minha querida amiga, deixaste o meu coracao apertadinho! Primeiro ah beira do abismo e depois ah beira da salvacao! Eh tao forte tudo o que estao a passar! Desculpa, mas nao consigo deixar de usar os pontos de exclamacao... que ainda assim sao poucos!
Nos pensamos muito pequeno, muito europeu, nao eh? Nao temos a dimensao do que se passa sequer ah nossa volta e queremos ditar as regras para outros que estao tao longe de nos, e nao quero dizer geograficamente!
Aqui as viajantes estao na recta final para o oriente! Dia 25 de Novembro partimos para uma Asia muito diferente da Europa, mas creio que igualmente diferente da Asia que encontraram ate agora!
Muitos beijos muito grandes para os dois! :-D***

 
At 6:19 da tarde, Blogger zorro said...

Fiquei muito impressionado com esta terrível narrativa. Mais uma vez me senti dentro de 1 livro. Pior do que isso. É a realidade e é com 2 amiguinhos muito especiais. Pela primeira vez, senti-vos muito, muito pequeninos. Lá longe. Mas ainda assim, estou a ver-vos. Aliás, parece-me (e espero que sintam o mesmo) que o pior já vocês passaram. Mas nós não. Falta o capítulo de varanasi...

 
At 6:06 da manhã, Blogger av_pm said...

Amiga querida,
Tambem eu uso e abuso dos pontos de exclamacao!! ;-)
Realmente pensamos pequenino, e eu tenho receio de nao estar a conseguir reunir a humildade necessaria para enfrentar o diferente. Mas garanto-te que todos os dias me esforco para evitar enquadrar esta realidade sob o ponto de vista exclusivamente ocidental. Mas as vezes os factos sao mais fortes que as intencoes...
Beijos grandes da AV

 
At 6:10 da manhã, Blogger av_pm said...

Zorro,
Um beijo especial dos amigos que sabem que tu estas sempre ai. Sabemos mesmo!
AV e PM

 
At 11:16 da manhã, Anonymous Anónimo said...

bom, hoje lá me decidi a ler com calma este fantástico relato.. :) Nem preciso de fotografias para imaginar o ar desesperado de A. e a calma desesperante de P., LOL. Espero que tudo vos continue a correr bem.
Laura

 

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