quinta-feira, novembro 10, 2005

Mumbai - Ahmedabad - Udaipur (ou a saga dos comboios)

No dia 1 de Novembro (feriado nacional tambem aqui), partimos as 13h40 com destino a Udaipur com transbordo em Ahmedabad. Iniciamos aqui a nossa experiencia com os famosos caminhos-de-ferro indianos. Famosos porque abrangem uma complexidade impar. Cobrem praticamente todo o territorio e constituem o meio de transporte mais utilizado pelos indianos nas suas deslocacoes.
Mesmo o PM (rapaz experiente nestas coisas de consultar horarios de comboio) ve-se grego para decifrar o Trains at a Glance - manual com 267 paginas, editado pela Indian Railways e indispensavel para o preenchimento do formulario necessario na aquisicao de qualquer bilhete.
Durante a viagem, rapidamente percebemos que os indianos gostam muito de andar de comboio. E sentem-se nas carruagens como em suas casas. Em todo o percurso comem sem parar (comida que trazem de casa em caixas de aluminio e ainda a que compram aos muitos vendedores que circulam no proprio comboio); conversam uns com os outros; passeiam entre lugares, trocam de assentos, esticam os pes descalcos nos bancos da frente (e, as vezes, entre as pernas do PM...).
Nesta viagem vamos acompanhados por um casal de avos e dois netos pequenos. No caminho, o mais novo (com 10 meses, informou-me a avo) fez muitos xi-xis para cima de toda a gente (nos pensamos que escapamos, mas nao temos a certeza). A avo fez questao de o alimentar de 10 em 10 minutos (durante horas a fio) e ate improvisou uma cama de baloico - no meio de nos, eh verdade, eh possivel! - para o petiz dormir a sesta. A nossa volta percebemos (e nas viagens que fazemos mais tarde confirmamos) que as mulheres carregam tudo o que se possa imaginar em varios sacos, malas e trouxas.
As viagens parecem-nos sempre interminaveis. Mas apenas nos revelamos sinais de cansaco e ansiedade. Para todos eles, aquilo eh uma festa. Em cada estacao entram sempre umas dezenas de pessoas que, mesmo com bilhetes comprado, nao tem lugar sentado. Acomodam-se como podem, no chao ou onde calha.
O ambiente vai ficando carregado, e mais barulhento, e o cheiro predominante eh intenso mas indecifravel. Cola-se ah nossa roupa, pele e cabelo.
O caos instala-se definitivamente ah medida que nos aproximamos do fim, ou quando anoitece e as atencoes centram-se todas no interior das carruagens. Ha muito barulho, com o comboio sempre a silvar, as gentes a falarem alto e as criancas a chorarem.
Anoitece e percebemos melhor o significado do Diwalli que se comemora: em todas as localidades por onde passamos, lamparinas acesas e luzes electricas clamam por bons augurios, muita sorte e saude. Pequenos pontos de luz nos alpendres das casas, mesmo naquelas (a maioria) em que a pobreza eh visivel. As pessoas comemoram nas ruas, com o fogo de artifico a repetir-se de terra em terra, durante toda a noite.
Chegamos a Ahmedabad por volta das 22h00. A primeira sensacao que me assaltra eh a necessidade urgente de sair daqui para fora. Nunca imaginei local tao feio como este. As gentes parecem personagens de um filme biblico. Andrajosas e insondaveis. Pedintes, vendedores e condutores de riquexos chamam por nos, agarram-nos e querem agarra-nos nas mochilas. Um suplicio que nos faz detestar Ahmedabad.
As 23h05 partimos para Udaipur, onde devemos chegar por volta das 8h00 da manha. Eh a vez de descobrir os comboios na versao sleeper. Cada carruagem tem entre seis a oito lugares convertiveis erm cama (na forma de beliche) e ha tambem um ritual associado. As pessoas trazem de casa mantas, almofadas, roupas de la e gorros para usar durante a noite. Protegem-se nao so do frio que se faz sentir, mas sobretudo do po que entra por todo o lado e se nos entranha no nariz e entope os pulmoes.
Nos nao temos manta, por isso, vestimos os nossos casacos de fato-de treino, tapamo-nos com o nosso lencol, e tentamos dormir ate chegarmos ao destino. [AV]

[Continua: Udaipur-Agra-Varanasi]

4 Comments:

At 4:14 da tarde, Anonymous Anónimo said...

eheheh onde é que eu já vi isso :o)

Amdabad é realmente uma cidade estranha, mas não tão estranha durante o dia.

Deus

 
At 11:56 da manhã, Anonymous Sonia Ramos said...

ola AV! ola PM! vou seguir a vossa "regra" de tentar escrever sem acentos! a ver no que da! estou a adorar ler o vosso blog! e como que um livro com capitulos novos todas as semanas, mas sem saber em que dia sao publicados, o que torna a leitura tao excitante! de tudo o que li, fiquei a matutar na questao de se ter de preencher um formulario para adquirir bilhete! pelos vistos, a burocracia não e apenas lusitana:-)
beijinhos e abracos,
S.

 
At 6:38 da manhã, Blogger av_pm said...

Nos tambem achamos muito excitante isto das viagens, principalmente quando nao sabemos quando e para onde vamos conseguir a proxima :-)

Quanto aos acentos... e ja reparaste no nosso estratagema para "acentuar" certas palavras como o eh (e') ou o ah ('a) embora este ultimo possa ser confundido com a interjeicao ah! Ok, sempre que quisermos usar a interjeicao utilizaremos aaahhhh! :-) [PM]

 
At 7:11 da tarde, Blogger hector said...

Que belo relato este! De uma ruralidade que me deixa saudade do que não vivi. Andar no comboio é uma festa!

Que aventura! Quem dera o sir michael palin viajar nessas condições. Isso sim, é 1 desafio.
Mas em Ahmedabad a coisa deve ter estado mesmo feia, meus pobrezinhos...

 

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